Manejo biológico do solo entra na busca por produtividade da cana
Dib Nunes defende integração dos manejos físico, químico e biológico
A busca por ganhos de produtividade na cana-de-açúcar está ampliando a atenção sobre a biologia do solo e sua relação com os componentes físicos e químicos dos ambientes de produção. O tema foi abordado por Dib Nunes, presidente e consultor do Grupo IDEA, durante o 20º Grande Encontro sobre Variedades de Cana & Novas Técnicas de Fertilização, realizado em setembro, em Ribeirão Preto – SP.
Segundo Nunes, o setor avançou nas últimas décadas no conhecimento das características físicas e químicas do solo, enquanto a parte biológica ainda é pouco considerada. Para ele, clima, solo, planta e práticas culturais precisam ser avaliados em conjunto, com atenção à rizosfera e ao sistema radicular.
Dados apresentados pelo Grupo IDEA mostram que a produtividade agrícola da cana-de-açúcar encontra dificuldade para avançar de forma consistente nos últimos anos. O consultor apontou entre os fatores relacionados a esse desempenho a compactação, a lixiviação de bases, a extração contínua de nutrientes e os efeitos da mecanização sobre o canavial.
“Na história dos últimos anos, nós tivemos uma estagnação na produtividade e nós temos muita preocupação com isso”, afirmou.
Matéria orgânica entra no manejo
Entre as alternativas apresentadas para elevar a produtividade, ele destacou a matéria orgânica. Depois da irrigação, que exige investimentos elevados, seu uso aparece como uma opção de menor investimento para buscar ganhos de rendimento nas culturas.
A proposta combina práticas consolidadas, como calagem e correção da fertilidade, com o conhecimento sobre a atividade biológica do solo. Nunes defendeu a incorporação das novas tecnologias sem abandonar técnicas agronômicas que já apresentam resultados.
“Temos que conseguir mesclar aquilo que nós temos necessidade de usar, como, por exemplo, uma calagem”, disse. De acordo com o consultor, a correção do solo continua necessária para favorecer o desenvolvimento da cultura e a atividade dos microrganismos.
Fungos micorrízicos estão entre os organismos associados a esse processo. Eles vivem em simbiose com as raízes e contribuem para a absorção de água e nutrientes. Bactérias fixadoras de nitrogênio e fungos formadores de micorrizas também estão associados à solubilização de fósforo, maior tolerância ao estresse e estruturação do solo.
Bioinsumo exige diagnóstico do ambiente
A aplicação de produtos biológicos, porém, não garante resposta agronômica por si só. Segundo Nunes, os microrganismos precisam encontrar condições adequadas para sobreviver e se multiplicar no solo, entre elas disponibilidade de matéria orgânica e boa oxigenação.
Os bioinsumos devem complementar a adubação química. A redução no fornecimento de nutrientes pode ocorrer gradualmente à medida que a fertilidade natural melhore, desde que amparada por resultados de pesquisa. Rotação de culturas, plantas de cobertura, pousio e substâncias húmicas também podem contribuir para aumentar a atividade biológica.
A escolha do manejo depende do diagnóstico de cada área. A avaliação reúne características como pH, matéria orgânica, teor de argila, retenção de água e microrganismos predominantes, além do histórico de uso de vinhaça, torta de filtro, fertilizantes, corretivos e rotação com leguminosas.
Palha abre nova frente de manejo
A incorporação da palha também foi abordada como fonte de material orgânico. Entre os efeitos apontados estão a aceleração da decomposição, a melhora da infiltração de água e a ativação da microflora. O volume pode variar de 3 a 16 toneladas por hectare de matéria seca.
A operação tem limitações. A retirada da cobertura da superfície reduz a proteção contra erosão e a retenção de umidade. A decomposição pode ainda exigir nitrogênio adicional ou outra fonte de matéria orgânica para evitar competição com a cana-de-açúcar.
Preparo do solo, aplicação de corretivos e resíduos industriais, uso de defensivos, irrigação e compactação também alteram as populações de microrganismos. Entre os desafios estão áreas compactadas, solos pobres em fósforo ou matéria orgânica e locais com pragas e doenças. “Cada situação vai demandar um tipo de manejo”, afirmou Nunes.
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