Setor mira demanda potencial de cerca de 100 bilhões de litros de etanol
SAF, biobunker e novas misturas abrem espaço para ampliar o consumo
A expansão da oferta de etanol no Brasil deve aumentar a necessidade de novos mercados para o combustível nos próximos anos. Misturas mais elevadas, transporte marítimo e combustível sustentável de aviação (SAF), formam as principais frentes de crescimento identificadas pela Tereos, com demanda potencial próxima de 100 bilhões de litros.
As projeções foram apresentadas por Felipe Mendes, diretor de Sustentabilidade, Novos Negócios e Relações Institucionais da Tereos, durante a 9ª Conferência NovaCana, realizada nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo.
No horizonte de cinco anos, a companhia trabalha com uma oferta adicional de aproximadamente 10 bilhões de litros de etanol na safra 2030/31, puxada principalmente pelo milho. A demanda adicional é estimada entre 7 bilhões e 10 bilhões de litros. No cenário conservador, haveria um excedente de cerca de 3 bilhões de litros a ser direcionado a outros mercados.
O Ciclo Otto pode acrescentar entre 3 bilhões e 4 bilhões de litros ao consumo, considerando crescimento do Produto Interno Bruto entre 2% e 2,5% e manutenção da frota. Consumo no Nordeste, reforma tributária e mudanças nas misturas completam as fontes de demanda consideradas pela companhia.
Misturas abrem mercado de 7,5 bilhões de litros
No curto e médio prazos, a ampliação das misturas aparece como a alternativa mais imediata. A Tereos calcula potencial de 7,5 bilhões de litros, apoiado pela perspectiva de implementação do E35 no Brasil em 2027, pelo avanço do E15 nos Estados Unidos e pelo potencial do E27 na Índia.
A companhia acompanha ainda discussões sobre a adoção temporária do E20 na União Europeia e movimentos para misturas entre E5 e E10 em mercados asiáticos, entre eles Japão, Indonésia, Filipinas e Vietnã.
A busca por novos mercados ocorre em um momento de forte participação do Brasil nos negócios da companhia. No exercício 2025/26, as operações brasileiras responderam por 57% do EBITDA do segmento internacional de Açúcar e Renováveis da Tereos.
No país, a companhia processou 17,9 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, produziu 1,7 milhão de toneladas de açúcar e 426 mil metros cúbicos de etanol, além de comercializar 810 GWh de energia. A área plantada chegou a 316 mil hectares e o mix destinado ao açúcar ficou próximo de 70%.
A operação brasileira registrou receita líquida de R$ 5,7 bilhões e EBITDA ajustado de R$ 2 bilhões, com alavancagem de 1,1 vez. A Tereos mantém ainda parceria de 30 anos com a VLI, com capacidade contratada para movimentação de 1,5 milhão de toneladas e armazenagem de 200 mil toneladas de açúcar.
Biobunker pode representar 30 bilhões de litros
O transporte marítimo forma a segunda frente de expansão. Pelas estimativas apresentadas por Mendes, uma participação de 10% do etanol nesse mercado representaria demanda próxima de 30 bilhões de litros.
Na comparação feita pela Tereos, o bunker fóssil apresenta intensidade de carbono de 86 gCO2eq/MJ no ciclo Well to Wake, ante uma faixa de 5 a 25 gCO2eq/MJ para o etanol anidro brasileiro. O preço considerado é de US$ 19 por MJ para o bunker e de US$ 26 por MJ para o etanol.
A Organização Marítima Internacional tem como alvo uma redução de 40% das emissões até 2030. Mendes citou testes da Maersk com etanol e a previsão de motores da Wärtsilä preparados para utilizar o combustível a partir de 2028.
SAF pode gerar demanda de 65 bilhões de litros
A maior oportunidade em volume está na aviação. Segundo a Tereos, uma participação de 10% no mercado potencial de SAF poderia representar demanda equivalente a aproximadamente 65 bilhões de litros de etanol. A rota Alcohol-to-Jet, a AtJ, é considerada uma das alternativas de maior escala, embora sua viabilidade tecnológica ainda precise ser confirmada.
Na União Europeia, o ReFuelEU Aviation estabelece participação de SAF de 2% em 2025, 6% em 2030, 20% em 2035 e 70% em 2050. A Tereos estima que a demanda pelo combustível poderá crescer oito vezes até 2050. A capacidade atual está entre 1,5 bilhão e 2 bilhões de litros, com outros 3,5 bilhões a 4 bilhões de litros em projetos em construção ou com decisão final de investimento.
A companhia participa na Europa do Rebound, projeto para desenvolver uma unidade de SAF pela rota AtJ no Porto de Dunkirk, na França. A capacidade prevista é de 160 mil toneladas por ano. A iniciativa reúne Technip Energies, Airbus e Safran, além da Tereos, responsável pelo fornecimento de etanol produzido a partir de resíduos agrícolas e florestais.
No Brasil, o ProBioQAV estabelece metas de redução das emissões das operações aéreas domésticas de 1% em 2027, 3% em 2030 e 10% em 2037. A obrigação considera a redução de emissões, e não um percentual fixo de mistura. Atualmente, 22% do combustível de aviação consumido no país ainda é importado.
Outro avanço apontado por Mendes é o Book and Claim, mecanismo que permite separar o atributo ambiental do combustível de sua movimentação física, com rastreabilidade e controles contra dupla contagem. Entre dez e 15 empresas já possuem certificação ISCC CORSIA.
A Tereos mantém discussões relacionadas a cinco projetos, dois no Brasil, dois na Ásia e um na Austrália. Mendes avalia que a abertura desses mercados dependerá também de previsibilidade para sustentar os investimentos. “A sustentabilidade desse equilíbrio dependerá da construção sólida do setor, de parcerias estratégicas, de um advocacy eficaz e da consistência regulatória”, afirmou.
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