Centro-Sul pode ter mais cana, mas parte deve ficar no campo
Canaplan prevê 631,4 milhões de toneladas e açúcar limitado a 39 milhões
A safra 2026/27 do Centro-Sul deve ter mais cana disponível, mas parte da matéria-prima pode permanecer no campo diante das limitações para processar todo o volume. A projeção apresentada por Luiz Carlos Corrêa Carvalho, o Caio Carvalho, diretor da Canaplan, no 5º Congresso Global Cana, realizado no dia 3 de setembro, em Ribeirão Preto – SP, aponta moagem de 631,4 milhões de toneladas, ante 611,2 milhões na temporada anterior, enquanto a produção de açúcar é estimada em 39 milhões de toneladas.
Durante o evento, o consultor ponderou que uma oferta maior de matéria-prima não significa necessariamente capacidade para processá-la integralmente ao longo da temporada. O cenário aumenta o risco de cana bisada, com parte do volume disponível permanecendo no campo para ser colhida na safra seguinte. A expectativa de menos dias de moagem está entre os fatores que sustentam essa avaliação.
“Mais cana aqui no Centro-Sul não significa que a gente vai conseguir moer”, lembrou.
Mix menor limita produção de açúcar no Centro-Sul
O mix açucareiro é projetado em 47% na safra 2026/27, abaixo dos 50,4% registrados no ciclo anterior. Com menor direcionamento da matéria-prima para o adoçante, a produção deve recuar dos 40,4 milhões de toneladas registrados em 2025/26 para 39 milhões nesta temporada.
O resultado ainda dependerá do comportamento das chuvas, da qualidade da matéria-prima e dos florescimentos. “Existe o risco de ser menor que 39 milhões de toneladas. Claro que existe, depende das chuvas, da qualidade da cana e do quanto de cana vai ficar em pé”, disse o consultor.
No Norte e Nordeste, a projeção é de moagem de 54,5 milhões de toneladas em 2026/27, ante 56 milhões no ciclo anterior. A produção de açúcar, por outro lado, deve aumentar de 3,13 milhões para 3,35 milhões de toneladas, com avanço do mix açucareiro de 45,1% para 49,2%.
Etanol de cana cresce e milho chega a 12 bilhões de litros
O menor direcionamento da matéria-prima para açúcar favorece o etanol no Centro-Sul. A produção a partir da cana é estimada em 27,2 bilhões de litros em 2026/27, acima dos 24,5 bilhões da temporada anterior.
Ao mesmo tempo, o etanol de milho mantém trajetória de expansão. A produção nacional é projetada em 12 bilhões de litros, ante 9,2 bilhões em 2025/26. Somados os volumes de etanol de cana do Centro-Sul e de milho, a oferta se aproxima de 40 bilhões de litros.
Esse crescimento coloca a demanda no centro das atenções no curto prazo. Dados apresentados no congresso mostram que 77% dos veículos leves brasileiros são flexíveis, enquanto o etanol representa cerca de 27% do combustível utilizado por essa frota.
Carvalho chamou a atenção para o espaço ainda disponível no mercado doméstico. Segundo ele, mesmo quando a relação de preços chegou a ser bastante favorável ao biocombustível, a migração dos motoristas não ocorreu na mesma proporção. “A gente chegou a ter o etanol na bomba abaixo de 60% em relação à gasolina. O povo continuou a usar gasolina”, afirmou.
Aviação e navegação abrem novas frentes de consumo
No médio e longo prazo, a expansão do mercado pode vir de aplicações que ultrapassam os veículos leves. Entre as possibilidades apresentadas estão a substituição parcial do diesel por etanol, o combustível sustentável de aviação e o transporte marítimo.
Um dos exemplos é a tecnologia Dual Fuel desenvolvida pela Bosch, que possibilita substituir até 60% do diesel por etanol. O sistema mantém os componentes originais do motor e pode ser instalado em máquinas agrícolas já em operação, sem exigir a renovação da frota.
Na aviação, projeções do PDE 2035 apresentadas durante a palestra indicam demanda nacional de combustível sustentável de aviação entre 2,5 bilhões e 7,1 bilhões de litros em 2035, conforme o cenário considerado.
A navegação também aparece como mercado potencial. Se o etanol alcançar participação de 10% no combustível utilizado pelos navios, a demanda poderia chegar a 50 bilhões de litros por ano em 2035. O setor marítimo responde atualmente por 2% a 3% das emissões globais e enfrenta metas de redução de gases de efeito estufa.
Produtividade maior muda desafio da agricultura mundial
A busca por novas fontes de consumo está ligada a uma transformação mais ampla da agricultura mundial. Estudo da S&P Global Energy e da U.S. Farmers and Ranchers in Action citado pelo diretor da Canaplan aponta que os ganhos de produtividade continuam avançando, enquanto a demanda tradicional por alimentos perde velocidade.
O consumo per capita de carnes e grãos, que crescia cerca de 2,4% ao ano no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, caiu para 0,7% e tende a se aproximar de 0,1% perto de 2050. Em sentido contrário, genética, agricultura de precisão e biotecnologia sustentam crescimento da produtividade agrícola próximo de 1,5% a 1,6% ao ano. “A gente atingiu um grau em que a produtividade está ganhando da demanda”, ressaltou. Sem novos vetores de consumo, o estudo aponta risco de superávits crônicos, pressão sobre os preços das commodities e abandono de até 30 milhões de acres de terras agrícolas nos Estados Unidos até 2050.
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