Empresas de bioenergia ganham espaço entre CRAs mais negociados
São Martinho, Adecoagro e Usina Batatais se destacam em agosto
Empresas do setor bioenergético figuraram entre os destaques do mercado secundário de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) em agosto. São Martinho, Adecoagro Vale do Ivinhema e Usina Batatais aparecem nos rankings da Quantum Finance, em um cenário de retração nas novas emissões, mas de manutenção da atividade de negociação dos títulos já em circulação.
A São Martinho registrou R$ 91,3 milhões negociados em um de seus CRAs, ocupando a oitava posição no ranking por volume financeiro. A companhia também se destacou pela quantidade de operações, com dois papéis entre os dez mais negociados, que somaram 3.778 transações. A Adecoagro Vale do Ivinhema movimentou R$ 83,6 milhões em um de seus títulos, enquanto a Usina Batatais contabilizou 1.391 negócios com um CRA.
A presença das três companhias chama a atenção em um mercado no qual investidores têm adotado critérios mais rigorosos na avaliação de risco, custo de captação e liquidez. Os indicadores, entretanto, representam dimensões distintas da negociação, já que o volume financeiro não acompanha necessariamente a frequência das operações.
Emissões registram queda de 54,2% no acumulado do ano
O mercado de CRA movimentou R$ 2,41 bilhões em novas emissões em agosto, o maior resultado mensal de 2026, segundo a Quantum Finance. O montante, porém, ficou 63,8% abaixo dos R$ 6,65 bilhões registrados no mesmo mês de 2025. De janeiro a agosto, as captações totalizaram R$ 10,22 bilhões, ante R$ 22,33 bilhões no intervalo correspondente do ano passado.
Parte dessa retração está relacionada às mudanças regulatórias introduzidas pela Resolução nº 5.212 do Conselho Monetário Nacional (CMN), publicada em maio de 2025, que restringiu o universo de empresas elegíveis ao instrumento. As ofertas protocoladas até a entrada em vigor da norma foram preservadas, o que contribuiu para manter as emissões em patamar elevado durante o restante daquele ano.
Amanda Coura, fundadora da Zera, avalia que a alteração procurou restabelecer a vinculação dos CRAs às atividades do agronegócio, embora tenha reduzido o número potencial de emissores. “Foi um ajuste importante para aproximar novamente o uso do CRA de sua finalidade original, mas que naturalmente reduziu o universo potencial de emissores e ajuda a explicar parte da desaceleração observada nas novas operações”, afirma.
Apesar da menor emissão de novos papéis, o estoque de CRA encerrou agosto em R$ 174,95 bilhões, crescimento de 7,5% em relação aos R$ 162,78 bilhões registrados um ano antes. O saldo permanece próximo do pico de R$ 178,39 bilhões alcançado em dezembro de 2025.
No mercado secundário, as negociações movimentaram R$ 6,63 bilhões em agosto. Entre janeiro e julho, o volume havia somado R$ 51,72 bilhões, avanço de 4,2% na comparação anual, indicando que a redução das captações não foi acompanhada por uma queda equivalente na movimentação dos títulos existentes.
Fiagros e CPRs ampliam alternativas de financiamento
Enquanto o mercado de CRA passa por um período de ajuste, outras modalidades de financiamento ganham participação. A regulamentação dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), por meio da Resolução nº 214 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em vigor desde março de 2025, ampliou as possibilidades de aplicação em ativos ligados ao agronegócio.
A mudança permitiu maior flexibilidade na composição das carteiras, incluindo Cédulas de Produto Rural (CPRs) físicas e financeiras. Para Amanda, a regulamentação criou novas possibilidades de direcionamento dos recursos dos investidores às atividades agroindustriais. “Na prática, a regulamentação ampliou as alternativas para que o capital dos investidores chegue ao setor por estruturas diferentes do CRA”, explica.
Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) mostram que o estoque de CPR alcançou R$ 600,3 bilhões em agosto, superando os R$ 561,29 bilhões das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). Foi a primeira vez que as CPRs ultrapassaram as LCAs nesse indicador.
Os Fiagros também apresentaram expansão. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as ofertas somaram R$ 9,9 bilhões entre janeiro e agosto, superando os R$ 8,85 bilhões captados durante todo o ano de 2023, até então o recorde anual.
“O CRA continua relevante, mas FIAGRO, CPR e outras estruturas vêm ganhando participação e oferecendo novas alternativas de funding para produtores e empresas da cadeia”, afirma Amanda.
Os dez CRAs de maior movimentação financeira concentraram R$ 1,29 bilhão em agosto, o equivalente a 19,5% do volume negociado no mercado secundário.
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