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Biometano abre nova frente para descarbonização do transporte

Estudo aponta potencial de 41,4 bilhões de m³ ao ano no setor sucroenergético

O biometano produzido a partir de resíduos agroindustriais pode ampliar seu espaço na descarbonização do transporte pesado e, ao mesmo tempo, abrir uma nova frente de negócios para o setor sucroenergético brasileiro. Estudo internacional encomendado pelo Instituto MBCBrasil estima que apenas esse segmento tenha potencial para produzir 41,4 bilhões de m³ do combustível por ano, volume do qual atualmente menos de 2% é aproveitado.

O levantamento Biomethane for Transport Decarbonization reúne evidências científicas e econômicas sobre o uso do combustível em mercados das Américas, Europa, Ásia e África. O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Itajubá, Instituto Agronômico de Campinas e Instituto Mauá de Tecnologia.

Produzido pela biodigestão de resíduos orgânicos, como vinhaça, torta de filtro, dejetos animais, lixo urbano e esgoto, o biometano pode substituir combustíveis fósseis sem exigir mudanças profundas na operação de frotas movidas a gás. No transporte pesado, o estudo calcula redução de 45% a 75% nas emissões de CO₂ equivalente em relação ao diesel, considerando o ciclo poço à roda.

Em projetos que também evitam a liberação de metano proveniente da decomposição de resíduos, o balanço pode se tornar negativo. Segundo o levantamento, determinados sistemas baseados em dejetos e resíduos chegam a registrar emissões até 246% inferiores às do diesel.

Mercado mundial amplia espaço para o combustível

A produção de biometano está presente em cerca de 40 países e o combustível já é utilizado no transporte em quase 30 mercados. O potencial sustentável mundial de biogás e biometano é estimado em aproximadamente 1 trilhão de m³ por ano, equivalente a cerca de um quarto da atual demanda global de gás natural.

Na União Europeia, o plano REPowerEU estabeleceu como meta alcançar produção anual de 35 bilhões de m³ de biometano até 2030, com investimentos estimados em € 37 bilhões. Nos Estados Unidos, o estudo contabiliza 470 projetos de gás natural renovável.

Para Gláucia Mendes Souza, professora da USP, líder da IEA Bioenergy Task 39 e uma das autoras do levantamento, o avanço internacional cria uma oportunidade que vai além da produção brasileira de combustível.

“Dentro desse cenário mundial, o Brasil se destaca pela escala, mas a grande oportunidade do país não é apenas produzir o combustível, e sim liderar o fornecimento de tecnologia, equipamentos, engenharia e soluções integradas desenvolvidas aqui para outros mercados que buscam se descarbonizar”, afirma.

Essa possibilidade está associada à experiência acumulada pelo país no aproveitamento de resíduos agroindustriais. O estudo destaca tecnologias desenvolvidas para biodigestores, sistemas de purificação de gás, transporte de biometano liquefeito e integração da produção com fertilizantes de baixo carbono.

No setor sucroenergético, vinhaça e torta de filtro aparecem entre as principais matérias-primas disponíveis. A experiência com esses resíduos pode favorecer a oferta brasileira de equipamentos, serviços e engenharia para outros países com produção agrícola relevante e infraestrutura de biodigestão ainda limitada.

Biometano avança nas usinas brasileiras

A competitividade também aparece no custo do transporte. Simulações reunidas pelo estudo indicam custo total de propriedade de US$ 1,73 por quilômetro para veículos abastecidos com gás natural comprimido ou biometano no Brasil, abaixo dos US$ 1,87 por quilômetro estimados para o diesel. Dependendo das condições de operação, a diferença pode variar de uma redução de 30% a um acréscimo de 25% frente ao combustível fóssil.

A viabilidade dos projetos pode ser reforçada por outras fontes de receita. Em mercados mais maduros, entre 20% e 60% do faturamento de uma planta pode vir de atividades além da venda do combustível, como tratamento de resíduos, comercialização do digestato como biofertilizante e créditos de carbono.

No Brasil, projetos a partir de resíduos da cana já estão em operação em unidades da Cocal, Raízen, São Martinho e Adecoagro. Na safra 2024/25, o país processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar e gerou volume estimado em 380 bilhões de litros de vinhaça, segundo os dados reunidos pelo estudo.

Na unidade da Cocal em Narandiba, em São Paulo, a produção de biometano a partir de vinhaça e torta de filtro chega a cerca de 50 mil Nm³ por dia. A empresa também possui uma planta em Paraguaçu Paulista, com produção estimada entre 30 mil e 40 mil Nm³ diários.

O avanço ocorre em meio à criação de novos instrumentos regulatórios. A Lei do Combustível do Futuro instituiu o Certificado de Garantia de Origem de Biometano e estabeleceu uma meta compulsória de redução de emissões no mercado de gás natural, iniciada em 0,5% em 2026 e com previsão de aumento gradual até 10%.

Para José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil, o desenvolvimento desse mercado também pode ampliar a presença brasileira na cadeia tecnológica ligada à transição energética. “O estudo deixa claro que o biometano não é uma aposta futura ou experimental, mas uma realidade pronta e em escala global”, afirma.

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