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Juros altos e pressão fiscal ampliam riscos para 2027, diz Vale

Economista aponta crédito caro e desaceleração da economia brasileira

A combinação de juros elevados, deterioração fiscal e maior protecionismo internacional deve manter o ambiente econômico desafiador para empresas brasileiras, com reflexos sobre crédito, investimentos e atividade em 2027. A avaliação é de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, que vê o próximo ano como decisivo para a trajetória das contas públicas e dos juros no país.

Vale apresentou o cenário na quinta-feira (3), em Ribeirão Preto – SP, durante a 5ª edição do Global Cana. O encontro reuniu especialistas, produtores, representantes de usinas, consultores, fornecedores e lideranças do setor. Em sua palestra, o economista analisou o ambiente internacional, a economia brasileira e as perspectivas políticas.

No exterior, uma das principais fontes de pressão vem dos Estados Unidos. Dados apresentados pela MB Associados mostram déficit fiscal americano próximo de US$ 2 trilhões no acumulado em 12 meses. Ao mesmo tempo, os juros dos títulos de 30 anos estavam em 5,19% em agosto, depois de atingirem 5,22% em leilão recente, ante 4,91% em janeiro de 2025.

Para Vale, o desequilíbrio fiscal americano tende a manter elevado o custo do dinheiro globalmente. Como os títulos dos Estados Unidos funcionam como referência para outros mercados, taxas persistentemente altas no país acabam pressionando também as condições financeiras das economias emergentes. “A gente precisa estar preparado para esse mundo mais caro que vem pela frente”, afirmou.

Energia ganha espaço em cenário de maior instabilidade

As tensões geopolíticas também entraram na análise. A apresentação mostrou os efeitos da paralisação do Estreito de Ormuz sobre o comércio e sobre derivados de petróleo. Os preços dos óleos básicos do Grupo III chegaram a aproximadamente US$ 4 mil por tonelada na Europa e nos Estados Unidos, quase três vezes os níveis anteriores à guerra.

Na avaliação do economista, crises envolvendo petróleo reforçam a procura por alternativas energéticas. Para o setor sucroenergético brasileiro, esse movimento abre espaço em uma economia internacional que busca reduzir riscos associados à dependência de combustíveis fósseis.

O Brasil, ao mesmo tempo, ampliou sua própria presença no mercado de petróleo. A apresentação aponta produção de aproximadamente 4,5 milhões de barris por dia em junho de 2026. Em 2025, o país produziu 3,88 milhões de barris diários e ocupou a oitava posição entre os maiores produtores mundiais.

Vale também destacou a mudança na relação comercial brasileira com as grandes economias. A China ganhou espaço nas exportações e importações do país, enquanto as medidas protecionistas dos Estados Unidos criaram novas dificuldades para determinados segmentos brasileiros.

Dados apresentados no Global Cana indicam que a tarifa média aplicada pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros considerados no levantamento chegou a 16,6%, enquanto concorrentes nos mesmos mercados enfrentavam média de 9,1%. A diferença representa uma desvantagem relativa de 7,5 pontos percentuais.

Crédito rural sente avanço da inadimplência

No mercado doméstico, o palestrante chamou atenção para os efeitos dos juros sobre empresas e famílias. Segundo os dados apresentados, a taxa real de juros brasileira alcançou 9,4%, maior patamar em cerca de 20 anos. A combinação de crédito caro e endividamento já aparece nos indicadores de inadimplência.

No crédito rural para pessoas físicas, a inadimplência chegou a 12,6% entre tomadores com renda abaixo de dois salários-mínimos em junho de 2026. Nas demais faixas, alcançou 8,6% entre dois e cinco salários-mínimos, 8% entre cinco e dez salários e 6,1% entre aqueles com renda superior a dez salários-mínimos.

A deterioração também aparece regionalmente. Entre os Estados selecionados na apresentação, o Maranhão registrou inadimplência de 22,2% no crédito rural, seguido por Tocantins, com 12%, Goiás, com 9,5%, e Mato Grosso, com 6,7%. São Paulo aparecia em 5,1%.

“Essa taxa de juros começa a machucar com mais intensidade”, disse Vale ao tratar do aumento da inadimplência e das dificuldades enfrentadas por consumidores e empresas.

Ajuste fiscal entra no centro das perspectivas para 2027

A trajetória das contas públicas será determinante para a possibilidade de redução mais consistente dos juros, segundo ele. A apresentação mostrou um conjunto de medidas de ajuste com impacto estimado em aproximadamente 1,55% do Produto Interno Bruto no primeiro biênio e 3,78% do PIB em dez anos.

Entre as propostas apresentadas estão mudanças na indexação de despesas vinculadas ao salário-mínimo, revisão de pisos constitucionais, pente-fino em benefícios, revisão de gastos tributários e alterações no Simples e no MEI. Apenas a desindexação de determinados gastos e a revisão dos pisos poderiam representar economia acumulada próxima de R$ 1,9 trilhão em dez anos, segundo estimativas apresentadas pela MB Associados.

O desafio fiscal ocorre em um ambiente de desaceleração projetada. O cenário da MB Associados prevê crescimento do PIB brasileiro de 1,7% em 2026 e de 1% em 2027. Para a indústria geral, a estimativa passa de expansão de 1,8% neste ano para retração de 0,7% no próximo.

A projeção considera Selic de 13,75% no encerramento de 2026 e de 12% no fim de 2027. Para o câmbio, a estimativa é de R$ 5,40 por dólar em dezembro deste ano e R$ 5 no encerramento do próximo. Já o IPCA é projetado em 5,1% em 2026 e 4% em 2027. Nas contas públicas, porém, a MB Associados prevê déficit primário equivalente a 0,6% do PIB em 2026 e 1% em 2027. A dívida bruta, estimada em 83,2% do PIB neste ano, pode alcançar 89,1% no próximo.

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