Remuneração e geopolítica pautam debate no Cana Summit
Painel reúne ex-ministro, Canaplan e especialista ambiental
A formação de preços, os impactos da geopolítica e os entraves ambientais marcaram o primeiro painel do dia no Cana Summit 2026, realizado em Ribeirão Preto – SP, nos dias 15 e 16 de abril. Com o tema “Etanol, Petróleo, Geopolítica e COP-30 – Reflexos para o Produtor de Cana”, o debate reuniu Antônio Cabrera Mano Filho, Luiz Carlos Corrêa Carvalho (Caio) e Samanta Pineda.
O ex-ministro da Agricultura e Reforma Agrária, Antônio Cabrera Mano Filho, afirmou que a sustentabilidade da produção de cana-de-açúcar está diretamente ligada à liberdade de formação de preços. Ao relembrar as reformas iniciadas na década de 1990, ele destacou que o Brasil deixou de ser um dos maiores importadores de alimentos para se tornar potência agrícola global.
Segundo Cabrera, antes desse período, o setor operava sob forte intervenção estatal, com preços tabelados para produtos como carne, açúcar e leite, além de decisões centralizadas sobre produção. No caso da cana, ele citou o modelo de controle do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que limitava a atuação privada.
Para o ex-ministro, a abertura de mercado foi determinante para ganhos de eficiência e competitividade. Ele alertou, no entanto, que discussões recentes sobre possíveis intervenções representam risco ao equilíbrio do setor e podem comprometer a previsibilidade necessária aos investimentos.
Energia global e competitividade do etanol
A dinâmica internacional do petróleo e seus reflexos sobre o agro também estiveram no centro das discussões. Caio Carvalho, vice-presidente da Abag e diretor da Canaplan, destacou a forte correlação entre energia e alimentos, especialmente em cenários de tensão geopolítica.
Segundo ele, mais de 80% do petróleo e 90% do gás produzidos no Golfo têm como destino a Ásia, o que amplia a relevância de pontos estratégicos como o Estreito de Ormuz. Projeções indicam o barril em torno de US$ 110 entre abril e junho, com possível recuo para US$ 70 a partir de julho, mesmo após a liberação de cerca de 400 milhões de barris no mercado.
Carvalho avaliou que o mundo deixou de discutir apenas a transição energética e passou a operar sob o conceito de adição energética, combinando fontes fósseis e renováveis. Nesse contexto, a valorização do petróleo tende a ampliar a competitividade do etanol, mas o avanço depende de políticas estruturais e de instrumentos que internalizem as externalidades positivas das fontes limpas.
Entraves ambientais e perda de valor econômico
A agenda ambiental foi abordada por Samanta Pineda, advogada especializada em direito ambiental, que apontou gargalos na implementação de instrumentos legais e perda de valor econômico da sustentabilidade no Brasil.
Entre os pontos citados está o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que já reúne mais de 8 milhões de registros, mas ainda enfrenta dificuldades de validação e integração entre sistemas. Segundo ela, o produtor avançou no cumprimento das exigências, enquanto a análise segue lenta.
Outro entrave envolve a Lei 14.119 de 2021, que instituiu o pagamento por serviços ambientais, mas ainda depende de regulamentação para viabilizar a monetização dessas práticas. No cenário internacional, Pineda criticou a elevação da meta brasileira de redução de emissões de 43% para 67% antes da COP30, sem contrapartidas financeiras. A avaliação do setor é que o modelo atual pode limitar a inserção do país no mercado de carbono e concentrar no agro uma parcela relevante do esforço de redução de emissões, mesmo diante do potencial da bioenergia e da matriz energética majoritariamente renovável do Brasil.
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