Canaoeste Green transforma preservação em receita para produtores
Programa compensa emissões da Fenasucro em áreas de vegetação nativa
Áreas de vegetação nativa mantidas por produtores de cana estão sendo usadas para compensar emissões de empresas expositoras da Fenasucro & Agrocana, em Sertãozinho – SP. Em sua terceira edição, o Canaoeste Green compensou 154,9 mil quilos de CO₂ gerados na montagem de estandes em 59,8 hectares preservados por associados da Canaoeste.
Neste ano, 15 empresas aderiram ao programa. Os recursos pagos pelos participantes são destinados aos produtores responsáveis pelas áreas utilizadas na compensação, criando uma fonte de receita vinculada à conservação ambiental.
As participantes foram homenageadas durante o encontro promovido pela Canaoeste na terça-feira (11), antes da abertura oficial da Fenasucro. Foram reconhecidas Agicargo, ArcelorMittal, HCI, Ritec, Telog, TT do Brasil, Wirebus, Nova Smar, Fergal, Grupo Mecat, Safecarbon, Cocred, Comlink, TJA e Dedini.
Para o gestor operacional de Sustentabilidade da Canaoeste, Fábio de Camargo Soldera, iniciativas ambientais ainda são vistas por parte das empresas como custo. Essa percepção, segundo ele, começa a mudar à medida que critérios de sustentabilidade ganham peso nas relações comerciais e no acesso a mercados.
“Precisamos acreditar que uma propriedade altamente sustentável também pode trazer retorno”, afirmou Soldera.
Preservação passa a ter valor econômico
O Canaoeste Green opera no mercado voluntário de carbono. O programa mensura emissões relacionadas à participação das empresas na feira, como as provenientes do consumo de combustíveis, transporte e energia. O volume é convertido em CO₂ equivalente e compensado nas propriedades participantes.
Os imóveis rurais envolvidos no projeto pertencem a associados com produção de cana certificada pela Bonsucro, padrão internacional que estabelece critérios ambientais, sociais e de gestão para a produção sustentável da matéria-prima.
O diretor executivo da Canaoeste, Almir Torcato, destacou que a conservação dessas áreas representa um serviço ambiental prestado pelo produtor, mas que nem sempre é percebido ou reconhecido. Além de deixar parte da propriedade destinada à vegetação nativa, o produtor assume os custos necessários para sua manutenção.
“O produtor muitas vezes fica à margem desse reconhecimento. Ninguém vê que manter uma área preservada tem custo e que ele presta um serviço ambiental muito importante. Com o Canaoeste Green, esse trabalho pode ser reconhecido e o produtor pode receber pela conservação dessas áreas”, ressaltou.
Uma das propriedades participantes é a Fazenda Bom Destino. Durante o encontro, a produtora rural Lucila Meireles destacou que a vegetação nativa ocupa uma parcela relevante das propriedades e exige investimentos em conservação, prevenção de incêndios e recuperação ambiental.
“Imagina ter 20% da sua empresa economicamente não utilizável”, afirmou. Para a produtora, iniciativas que remuneram a conservação ajudam a custear a manutenção dessas áreas.
Carbono ganha espaço nas decisões das empresas
Soldera relaciona o avanço do Canaoeste Green a uma discussão mais ampla sobre descarbonização. O tema está entre os principais eixos da FenaBio, realizada nos dias 12 e 13 de agosto, paralelamente à Fenasucro & Agrocana, com debates sobre transição energética, biocombustíveis e novas tecnologias.
Para o gestor, o agronegócio pode participar desse mercado não apenas como fornecedor de matéria-prima para biocombustíveis. A conservação de vegetação e a redução de emissões também podem adquirir valor econômico com o desenvolvimento do mercado de carbono.
Ele cita ainda a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. O Ministério da Fazenda abriu consulta pública para definir os setores que deverão iniciar as obrigações de monitoramento, relato e verificação das emissões de gases de efeito estufa. A proposta prevê a entrada gradual das atividades entre 2027 e 2031.
Embora o Canaoeste Green não faça parte do sistema regulado, Soldera avalia que as novas regras devem aumentar a atenção das empresas para a gestão de suas emissões.
“O crédito de carbono é um tema altamente relevante no Brasil. Esse é um trabalho dentro do mercado voluntário e a expectativa é que cada vez mais empresas façam parte, trazendo benefícios para elas, para o meio ambiente e também para os produtores rurais”, disse.
Além dos estandes das 15 participantes, o Canaoeste Green fará a compensação das emissões das áreas comuns da Fenasucro & Agrocana. A contabilização será concluída após o encerramento da feira, com os dados dos quatro dias do evento.
O levantamento definirá o volume adicional de CO₂ e a área necessária para a compensação, completando o balanço do programa nesta edição da Fenasucro.
Compartilhe este artigo:
Veja também:
Você também pode gostar
Confira os artigos relacionados: