Preparo localizado reduz custos e preserva solo no canavial
Técnica concentra operações na linha da cana e racionaliza uso de insumos
A concentração das operações de preparo do solo na faixa destinada ao desenvolvimento da cana-de-açúcar pode reduzir custos de mecanização e de insumos, além de limitar os efeitos da compactação provocada pelo tráfego de máquinas. A estratégia foi apresentada por Américo Ferraz, da AFDN Consult, durante o 20º Grande Encontro sobre Variedades de Cana & Novas Técnicas de Fertilização, realizado em setembro, em Ribeirão Preto – SP.
Ferraz mostrou que a mecanização ampliou a pressão sobre o sistema radicular da cultura. Dados reunidos por ele indicam que o aumento da resistência do solo à penetração de 1,35 MPa para 4,11 MPa reduz em 76,6% o comprimento total das raízes, em 74,2% o volume radicular e em 75,6% a área superficial. O número de raízes emitidas cai 45,5%, enquanto a elongação recua 59%.
Os efeitos também aparecem na produtividade. Em um dos estudos, a referência de colheita manual registrou 125,83 toneladas por hectare no segundo corte. Com a entrada da colhedora, o volume caiu para 92,78 toneladas e, na combinação entre colhedora e transbordo de três eixos, para 86,33 toneladas por hectare. As reduções foram de 26,3% e 31,4%, respectivamente.
“Quando a produtividade é maior, você tem maior exigência de parque, e não só da colhedora como do transbordo”, afirmou ao relacionar o desempenho agrícola ao dimensionamento das operações.
Tráfego passa a fazer parte do planejamento
Uma das alternativas discutidas é o tráfego controlado, que mantém o deslocamento das máquinas em faixas específicas. A concentração das tensões nesses locais ajuda a preservar a soqueira e restringe a compactação às áreas destinadas à passagem dos equipamentos.
O manejo também envolve o próprio preparo. Ferraz mostrou que a subsolagem em área total pode reduzir a tensão de pré-consolidação do solo de 210 kPa para 70 kPa. Uma colhedora que exerce pressão de 94 kPa, portanto, já pode provocar novas alterações físicas após a operação. Os dados indicam propagação das tensões por cerca de 40 centímetros de profundidade e 90 centímetros de largura.
No preparo localizado, apenas a faixa necessária ao estabelecimento da cultura é trabalhada. O modelo considera um canteiro de 60 centímetros de largura e entre 40 e 45 centímetros de profundidade, enquanto a zona destinada ao tráfego permanece sem mobilização.
Com isso, 40% da área é mobilizada e os outros 60% permanecem cobertos por palha na zona de tráfego. Essa condição foi associada a uma redução de 75% da erosão, enquanto a estrutura natural abaixo da camada sujeita à compactação é mantida.
Engenharia busca reduzir potência e consumo
A configuração dos implementos também interfere no desempenho da operação. O consultor apresentou um projeto baseado na interação entre máquina, solo e planta, com mudanças na distribuição das hastes e na geometria das ponteiras. As simulações consideraram solo argiloso e velocidade de 4 quilômetros por hora.
Na comparação, a configuração com duas hastes por canteiro demandou menos potência em diferentes profundidades. A 45 centímetros, a necessidade caiu de 226 para 181 cavalos. A 60 centímetros, passou de 379 para 318 cavalos. A menor exigência de potência também reduz o consumo de diesel e os custos de investimento e operação. “Menor consumo de potência, menor consumo de combustível”, disse Ferraz ao explicar a lógica adotada no desenvolvimento do equipamento.
O sistema permite ainda reunir diferentes operações, como aplicação de corretivos e óxidos, composto, fosfatagem localizada, solubilizadores de fósforo, inseticidas e herbicidas em pré-plantio incorporado.
Aplicação localizada muda conta dos corretivos
Nos cálculos de correção do solo, a diferença aparece também no uso de insumos. Em uma das simulações, a aplicação de calcário em área total, considerando as camadas de zero a 20 e de 20 a 40 centímetros, exigiria 5,2 toneladas por hectare, com custo de R$ 1.134 por hectare.
No sistema localizado, foram considerados 0,6 tonelada por hectare de calcário superficial, ao custo de R$ 131,10 por hectare, e 773 quilos por hectare de óxido entre 20 e 40 centímetros, a R$ 734 por hectare. A economia calculada foi de R$ 269 por hectare, equivalente a 2,2 toneladas de cana.
O manejo concentra os produtos na região explorada pelas raízes, em vez de distribuí-los uniformemente pela área. Além de reduzir desperdícios, o modelo pode diminuir as emissões associadas ao uso de corretivos. Segundo os dados utilizados por Ferraz, uma tonelada de calcário representa aproximadamente 440 quilos de CO2.
Composto amplia diferença econômica entre os sistemas
A análise incluiu ainda o uso de torta e composto. A aplicação convencional em uma única camada a 300 milímetros de profundidade reduz a oxigenação e pode diminuir a atividade microbiana responsável pela mineralização da matéria orgânica, atrasando a liberação de nutrientes como nitrogênio orgânico e fósforo.
No modelo proposto, o composto é incorporado entre 150 e 200 milímetros, com maior homogeneização no solo. A prática favorece a estabilidade dos agregados, a atividade microbiana e a disponibilidade de nutrientes em menor tempo.
Os cálculos econômicos consideraram uma alternativa de adubação baseada no Boletim 100 do IAC, com 60 quilos de nitrogênio, 180 quilos de P2O5 e 180 quilos de K2O por hectare. Na opção mineral, foram utilizados 750 quilos por hectare da formulação 08-24-24, com custo de R$ 2.908 por hectare. A alternativa com 20 toneladas de composto e complementação de 207 quilos de KCl foi calculada em R$ 546 por hectare.
Na comparação feita por Ferraz, o uso de composto no preparo convencional resultou em margem de contribuição total de R$ 3.934,42 por hectare. Associado ao preparo localizado, o valor chegou a R$ 5.207,89 por hectare, equivalente a 42,8 toneladas de cana, ante 32,3 toneladas no sistema convencional.
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