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Agenda climática amplia peso nas decisões de investimento

Novos padrões de emissões elevam pressão sobre empresas e agronegócio

A agenda climática deixou de ocupar apenas o campo ambiental e passou a influenciar decisões de investimento, acesso a mercados e organização das cadeias produtivas. Para empresas brasileiras, o movimento ganha importância diante do avanço de padrões internacionais de emissões e da busca por competitividade em uma economia de baixo carbono.

O tema esteve no centro das discussões do Congresso Sustentável, realizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), no Rio de Janeiro. O encontro reuniu representantes do setor empresarial e especialistas em clima, economia e comércio internacional.

Para a presidente do CEBDS, Marina Grossi, o desafio brasileiro é transformar vantagens associadas aos recursos naturais em diferenciais competitivos capazes de atrair capital e gerar valor.

“No setor privado, a gente tem a visão de longo prazo que o Brasil precisa, porque o setor privado precisa investir para 30, 40 anos. Não é só exportar commodities, mas também os nossos minerais críticos, os nossos minerais que têm valor, seja por crédito de carbono, por pagamento de serviços ambientais, em milhares de formas”, afirmou.

Segundo ela, tecnologia e investimentos serão necessários para dar escala a esse processo e permitir que o país avance de uma vantagem comparativa para uma posição efetivamente competitiva.

Clima entra na avaliação de riscos

A incorporação das mudanças climáticas às estratégias empresariais também passa pela avaliação dos riscos de longo prazo. Lord Deben, ex-presidente do Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido, afirmou que as empresas precisam considerar o clima como uma variável permanente em seus planejamentos.

“Uma certeza é a mudança climática. Não é algo que vai desaparecer. Se você não construir seu negócio em torno dessas certezas, isso, sem dúvida, vai comprometer o seu futuro”, disse.

O movimento ocorre paralelamente ao aumento das exigências relacionadas à divulgação de emissões de carbono. Durante o congresso, foi destacada a transição de modelos voluntários para mecanismos obrigatórios, impulsionada principalmente pela demanda de investidores por informações capazes de dimensionar riscos e oportunidades climáticas.

Também foram discutidas mudanças nos padrões internacionais para inventários corporativos de carbono. A proposta apresentada prevê a consolidação de referências relacionadas aos Escopos 1, 2 e 3 e sua integração à norma ISO 14064-1, com o objetivo de estabelecer uma linguagem global comum para a contabilização das emissões.

Exigências chegam ao agronegócio

A adoção de padrões internacionais tende a ter reflexos diretos sobre setores fortemente ligados ao comércio exterior. O ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, afirmou que as decisões empresariais não podem considerar apenas as condições do mercado brasileiro.

“O empresariado brasileiro, o próprio agronegócio, por exemplo, que está muito no centro da discussão climática, tem que pensar no mercado global, tem que pensar que os padrões internacionais vão se aplicar. O acesso ao mercado vai passar pela agenda climática também”, afirmou.

Nesse cenário, critérios relacionados a emissões, rastreabilidade e sustentabilidade passam a integrar as condições de competitividade das cadeias exportadoras, ao lado de fatores tradicionais como preço, produtividade e logística.

A geopolítica também ganhou espaço nas decisões corporativas. Segundo Solange Ribeiro, vice-presidente da Neoenergia, questões antes restritas à esfera política passaram a influenciar onde investir, como produzir, de quem comprar e de que forma organizar as cadeias de suprimentos.

O debate ocorre em meio à tentativa do setor empresarial de ampliar sua participação na formulação de políticas de longo prazo. Durante o encontro, o CEBDS apresentou uma carta aos presidenciáveis com propostas voltadas à competitividade e ao desenvolvimento sustentável.

Para Marina Grossi, a continuidade dessa agenda dependerá da articulação entre empresas e poder público. “Para que essa nossa agenda vire uma agenda de Estado, a gente tem que ter uma governança melhor, onde o setor privado seja convidado, não só na hora da implementação e da execução, mas para construir”.

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