CCS abre nova fonte de receita para usinas de etanol
Captura de carbono pode alcançar retorno de 30% ao ano no setor
A captura e o armazenamento de carbono começam a ganhar espaço como uma nova fonte de receita para as usinas de etanol. O avanço da tecnologia permite aproveitar o CO₂ gerado durante a fermentação e abre diferentes possibilidades de monetização, com retorno sobre o investimento que pode chegar a 30% ao ano.
O potencial foi discutido na segunda edição do Carbonless Summit, realizada no dia 2 de setembro, em Ribeirão Preto – SP. Segundo os participantes, uma das vantagens do setor sucroenergético está na elevada concentração do CO₂ produzido durante a fabricação do etanol, o que reduz etapas necessárias para sua captura e posterior armazenamento.
Uma usina considerada típica pode gerar cerca de 80 mil toneladas de CO₂ purificado durante uma safra. De acordo com Everton Oliveira, organizador do evento, esse volume permite alcançar retorno de até 30% ao ano, dependendo do modelo adotado, com prazo estimado entre quatro e oito anos para recuperação do investimento.
“É um novo capítulo na lógica de transformar passivos, resíduos e sobras da cana em ativos financeiros e ambientais”, afirmou Oliveira. Ele compara o movimento ao aproveitamento da vinhaça como fertilizante e do bagaço e da palha para geração de energia, produção de etanol de segunda geração e outras aplicações.
Carbono amplia possibilidades de monetização
Entre os modelos discutidos está a venda do CO₂ capturado para empresas responsáveis pelo armazenamento. Há também alternativas que envolvem créditos de carbono, certificação de etanol com pegada negativa, aumento da geração de CBios por meio de melhor desempenho no RenovaBio e acesso a mercados que demandam combustíveis de menor intensidade de carbono.
Nesse cenário, a tecnologia conhecida como BECCS, que combina bioenergia com captura e armazenamento de carbono, aparece como uma das alternativas para o setor. O processo permite retirar o CO₂ de origem biogênica e armazená-lo permanentemente em formações geológicas.
Segundo Daniel Pedroso, executivo da EnduraCarbon, essa característica pode aumentar o valor dos créditos associados ao processo. “O carbono capturado por meio da tecnologia BECCS fica armazenado para sempre em depósitos geológicos”, afirmou.
Na avaliação do executivo, a permanência do armazenamento diferencia esses créditos daqueles vinculados a projetos florestais, que estão sujeitos a riscos como incêndios e desmatamento. A característica pode elevar a integridade ambiental dos ativos e ampliar seu valor comercial.
Etanol negativo abre caminho para novos mercados
Outro efeito potencial está na própria classificação ambiental do etanol. Segundo Claudio Marcos Ziglio, gerente de captura e armazenamento de carbono da Petrobras, uma usina que utiliza BECCS pode produzir biocombustível com potencial para certificação de pegada negativa.
Essa condição pode ampliar a competitividade do produto em segmentos submetidos a metas de redução de emissões, especialmente aviação e navegação. O etanol de menor intensidade de carbono pode ser destinado, por exemplo, à cadeia de produção de combustível sustentável de aviação e de combustíveis marítimos renováveis.
“Aviação e navegação têm mandatos obrigatórios de descarbonização a cumprir e o uso de biocombustíveis é item-chave nesta jornada”, disse Ziglio.
As tecnologias empregadas na cadeia de captura e armazenamento foram desenvolvidas e aperfeiçoadas ao longo de anos pela indústria de petróleo e agora começam a ganhar espaço em projetos ligados à bioenergia. Para as usinas, o movimento acrescenta uma nova possibilidade de receita a partir de um fluxo de carbono que já faz parte do processo industrial de produção de etanol.
O Carbonless Summit foi realizado pelo Instituto Água Sustentável, com apoio da CCS Brasil.
Compartilhe este artigo:
Veja também:
Você também pode gostar
Confira os artigos relacionados: