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Safra 2026/27 expõe pressão sobre custos e mercado no setor

Evento da Canaoeste debateu clima, Consecana e sustentabilidade

A Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canaoeste) reuniu produtores, consultores e representantes do setor sucroenergético na Abertura de Safra 2026/27, realizada no dia 24 de abril, em Sertãozinho – SP, para discutir os desafios econômicos, climáticos e operacionais do novo ciclo canavieiro. O encontro teve como foco a gestão de custos, o cenário geopolítico internacional, sustentabilidade e os desdobramentos da revisão do modelo Consecana-SP.

O presidente da Canaoeste, Fernando dos Reis Filho, destacou a necessidade de fortalecimento do setor diante de um ambiente mais volátil. “A atividade agrícola convive diariamente com incertezas, mas a Canaoeste continuará atuando para dar suporte ao produtor, levando informação, representatividade e ferramentas para tomada de decisão”, afirmou.

Já o diretor executivo da associação, Almir Torcato, ressaltou que a safra começou em um ambiente de maior pressão financeira e operacional. “O produtor está enfrentando um mercado mais apertado, com custos elevados e preços pressionados. Isso exige atenção redobrada na gestão e rapidez nas decisões”, disse.

Durante a programação, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da Canaplan, apresentou projeções para a safra 2026/27 no Centro-Sul, estimando moagem entre 631,4 milhões e 639,1 milhões de toneladas de cana, produtividade média próxima de 77 toneladas por hectare e produção de açúcar ao redor de 40 milhões de toneladas.

Segundo Carvalho, o setor enfrenta uma combinação de riscos ligados ao clima, juros elevados, instabilidade geopolítica e volatilidade nos mercados de energia e alimentos. A apresentação apontou preocupação com fertilizantes, logística internacional, conflitos no Oriente Médio e impactos sobre petróleo e inflação global.

O consultor também alertou para os efeitos de um cenário climático irregular sobre os canaviais do Centro-Sul, com possibilidade de florescimento, isoporização e atraso no desenvolvimento da cultura.

Custos e produtividade ganham peso na rentabilidade

Na análise econômica da safra, João Rosa (Botão), do Pecege Consultoria e Projetos, afirmou que a competitividade do produtor depende cada vez mais da relação entre produtividade, qualidade da matéria-prima e eficiência operacional.

Segundo ele, o custo médio da produção ficou próximo de R$ 1 a R$ 1,05 por quilo de ATR, enquanto o investimento na formação do canavial pode variar entre R$ 13 mil e R$ 22 mil por hectare, dependendo do ambiente de produção e do nível tecnológico adotado.

Botão destacou que ganhos de produtividade têm impacto direto na redução de custos. De acordo com o consultor, cada aumento de 5% no TCH pode reduzir o custo em aproximadamente 4%, enquanto avanços semelhantes no ATR têm potencial para diminuir o custo em cerca de 4,5%.

As projeções apresentadas durante o evento indicam ainda um cenário de maior dependência do mix alcooleiro e forte influência do petróleo sobre os preços do açúcar e do etanol.

Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana e integrante do Conselho Consultivo da Canaoeste, avaliou que o setor precisará ampliar integração entre indústria e produtores diante das transformações no mercado global de bioenergia. “A agroindústria e os produtores precisam caminhar juntos para enfrentar esse novo cenário internacional e fortalecer o protagonismo brasileiro na bioenergia”, afirmou.

Segundo Montabone, a edição 2026 da Fenasucro & Agrocana terá perfil mais internacionalizado, com presença de representantes de mais de 60 países em busca de tecnologias e soluções ligadas à bioenergia.

Sustentabilidade amplia espaço entre produtores

A sustentabilidade também ganhou destaque na programação, com apresentações sobre o Programa SEMEIA e os avanços da certificação Bonsucro entre associados da Canaoeste. O gestor Operacional de Sustentabilidade da Canaoeste, Fábio de Camargo Soldera, afirmou que o programa atua na adequação ambiental, social e de governança das propriedades rurais, buscando melhorar gestão, eficiência e competitividade.

Segundo ele, o trabalho envolve regularização ambiental, apoio em questões trabalhistas e implantação de ferramentas de gestão nas propriedades. “O objetivo é fazer com que o produtor tenha maior controle sobre custos, indicadores e eficiência operacional, melhorando a gestão da atividade”, disse.

Soldera destacou ainda a evolução do processo de certificação conduzido pela associação desde 2022. Atualmente, a Canaoeste possui 13 produtores certificados, somando cerca de 22 mil hectares e produção próxima de 1,5 milhão de toneladas de cana.

O analista de Sustentabilidade Gabriel Roque Perticarrari reforçou que o programa busca alinhar os produtores às exigências de mercado e às práticas ESG, criando condições para acesso a novas oportunidades comerciais e melhoria da gestão das propriedades.

A gerente Brasil da Bonsucro, Lívia Ignácio, afirmou que a certificação ainda enfrenta desafios comerciais, mas já apresenta ganhos operacionais relevantes ao produtor. “O retorno não acontece apenas pela venda do produto certificado, mas também pelos ganhos de gestão, redução de desperdícios e melhoria operacional”, afirmou. Segundo ela, a comercialização de créditos ligados à produção certificada surge como alternativa para ampliar a remuneração dos produtores certificados.

Durante o evento, a Canaoeste também homenageou os produtores associados certificados pela Bonsucro, reconhecendo o avanço das práticas sustentáveis nas propriedades e a participação dos produtores no ciclo de certificação conduzido pela associação. As apresentações destacaram a evolução do programa desde 2022 e os resultados alcançados em áreas certificadas, produtividade e desempenho ambiental.

Consecana segue em debate no setor

O tema Consecana-SP também esteve entre os principais assuntos debatidos durante a abertura da safra. O CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (ORPLANA), José Guilherme Nogueira, afirmou que o modelo entra em fase final de implementação, mantendo o fator adicional de 4,5% na remuneração dos produtores.

Segundo ele, os ajustes pendentes das safras 2024/25 e 2025/26 devem ser concluídos até julho, preservando as negociações bilaterais entre fornecedores e usinas. “O modelo mantém a integração entre as partes e prevê revisões periódicas para garantir atualização e equilíbrio ao sistema”, afirmou. Almir Torcato também comentou os debates em torno do tema e reconheceu que o processo envolveu negociações complexas entre produtores e indústria. Segundo ele, o setor ainda enfrenta dificuldades relacionadas à volatilidade de preços e às diferenças regionais nos contratos, mas o entendimento construído busca trazer maior estabilidade para o sistema de remuneração da cana.

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