Biocombustíveis podem abrir mercado de 650 bilhões de litros para o Brasil
Carlos Cogo aponta novas oportunidades para o etanol brasileiro
A descarbonização da economia mundial deve transformar o mercado de combustíveis nas próximas décadas e abrir uma demanda potencial de até 650 bilhões de litros para biocombustíveis. A avaliação foi apresentada pelo economista Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócio, durante o XII Simpósio Cana, realizado nos dias 15 e 16 de julho, em Piracicaba – SP.
Para o especialista, o Brasil reúne vantagens competitivas para ocupar posição de liderança nesse processo, impulsionado por novas exigências ambientais e por mudanças regulatórias que ampliam o consumo de combustíveis renováveis.
Na análise de Cogo, a expansão da demanda passa menos pelo aumento da oferta e mais pela criação de novos mercados. A aprovação da Lei do Combustível do Futuro, a consolidação do RenovaBio e a elevação gradual da mistura de etanol à gasolina criam um ambiente mais previsível para investimentos. Atualmente, 292 usinas participam do RenovaBio, programa que remunera a eficiência ambiental dos biocombustíveis por meio da emissão de créditos de descarbonização (CBIOs).
Os impactos dessas medidas já aparecem nas projeções apresentadas durante o evento. A adoção do E30 deverá elevar a demanda doméstica em aproximadamente 12,9 bilhões de litros de etanol. A evolução para o E32 acrescenta entre 600 milhões e 1 bilhão de litros, enquanto uma futura mistura E35 poderá representar mais 1,5 bilhão de litros ao mercado nacional. Segundo o economista, diferentemente de movimentos provocados pelo preço do petróleo, esse crescimento tende a ser estrutural por estar amparado por legislação específica.
Aviação e transporte marítimo lideram a nova demanda
O maior potencial de expansão, porém, está fora do mercado tradicional de combustíveis leves. Cogo destacou que a aviação deverá responder por uma parcela importante desse crescimento à medida que companhias aéreas e governos ampliam as metas de redução das emissões de carbono. As projeções indicam que o consumo mundial de SAF (Combustível Sustentável de Aviação) passará de 2,4 bilhões de litros em 2025 para um volume entre 449 bilhões e 500 bilhões de litros em 2050. Dentro desse mercado, a rota baseada em etanol poderá representar de 90 bilhões a 125 bilhões de litros.
Outro segmento apontado como estratégico é o transporte marítimo. Atualmente, esse mercado consome cerca de 1 bilhão de litros de combustíveis renováveis, mas a expectativa é que alcance entre 130 bilhões e 180 bilhões de litros até 2050, impulsionado pelas metas de descarbonização da Organização Marítima Internacional (IMO). Nesse cenário, o etanol poderá responder por um volume entre 20 bilhões e 45 bilhões de litros, ampliando significativamente as oportunidades para países produtores como o Brasil.
Somados, apenas os mercados de aviação e navegação poderão consumir entre 110 bilhões e 170 bilhões de litros de etanol nas próximas décadas. Para Cogo, esse movimento altera a lógica histórica do setor, que deixa de depender quase exclusivamente do consumo de veículos leves para abastecer cadeias econômicas nas quais a eletrificação apresenta limitações técnicas e econômicas.
Cana mantém vantagem na transição energética
Durante a apresentação, o economista também abordou a relação entre eletrificação e biocombustíveis. Segundo ele, o avanço dos veículos elétricos não elimina o espaço do etanol, pois as tecnologias atendem segmentos distintos. Enquanto a eletrificação avança em automóveis urbanos, motocicletas e parte do transporte coletivo, combustíveis renováveis continuam sendo alternativas mais viáveis para caminhões de longa distância, aviação, navegação e parte da indústria química.
As estimativas indicam que os veículos elétricos deverão substituir o equivalente a 1,3 milhão de barris de petróleo por dia em 2025, chegando a mais de 5 milhões de barris diários até 2030. No mesmo período, a produção mundial de biocombustíveis sustentáveis deverá quadruplicar até 2035.
Cogo também destacou o avanço do etanol de milho como parte da expansão da matriz renovável brasileira. O país possui atualmente 58 usinas, sendo 32 em operação e 26 autorizadas, além de um potencial de R$ 45 bilhões em investimentos até 2035. A demanda por milho destinada às usinas deverá crescer de 24,7 milhões para 60 milhões de toneladas, enquanto os coprodutos da indústria, como DDG e óleo de milho, continuam sustentando boa parte da rentabilidade das plantas industriais.
Ao avaliar o cenário para a cana-de-açúcar, o economista ressaltou que o Brasil reúne um conjunto de vantagens que poucos concorrentes conseguem replicar. Além da elevada eficiência agrícola, a cultura permite produzir etanol, bioeletricidade, biogás, biometano e matérias-primas para combustíveis avançados, ampliando as possibilidades de agregação de valor. Com mercados em expansão, regras mais estáveis e maior demanda por energia de baixa emissão de carbono, a competitividade do setor deverá depender cada vez mais da capacidade de elevar a produtividade e atender novos mercados consumidores de biocombustíveis.
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