Brasil pode produzir 43 milhões de toneladas de açúcar em 2027/28
Hedgepoint vê oferta brasileira limitando alta dos preços globais
O Centro-Sul pode produzir 43 milhões de toneladas de açúcar em 2027/28, segundo os primeiros números da Hedgepoint Global Markets para a temporada. A projeção reforça a perspectiva de oferta elevada no Brasil em um mercado que enfrenta riscos de produção em importantes países do Hemisfério Norte.
O cenário foi apresentado no Outlook Commodities, realizado na quarta-feira (19), em São Paulo – SP. Lívea Coda e Murilo Mello, da Hedgepoint, analisaram as perspectivas para o açúcar diante das condições dos canaviais, da relação de preços com o etanol e dos possíveis efeitos do El Niño sobre as principais regiões produtoras.
Antes da próxima temporada, a consultoria estima produção de 39,9 milhões de toneladas de açúcar no Centro-Sul em 2026/27. A projeção considera moagem de 635,5 milhões de toneladas de cana, ATR médio de 138 quilos por tonelada e 47,7% da matéria-prima destinada à fabricação da commodity.
No mercado internacional, a Hedgepoint trabalha com superávit de 3 milhões de toneladas nos fluxos comerciais em 2026/27. O volume brasileiro funciona como contrapeso às perspectivas menos favoráveis para outros fornecedores e reduz, neste momento, o risco de um aperto mais acentuado na disponibilidade mundial.
El Niño aumenta incerteza sobre oferta fora do Brasil
Na análise apresentada por Lívea, as condições de produção pioraram em países do Hemisfério Norte, enquanto o Centro-Sul mantém perspectiva de uma safra robusta. O El Niño aparece como uma das variáveis para os próximos meses, com efeitos distintos entre as principais origens produtoras.
Na Índia, monções mais fracas e atrasadas, acompanhadas de temperaturas elevadas, podem afetar o desenvolvimento das lavouras. Tailândia e América Central também ficam expostas a condições mais secas e quentes. No México, o clima é outro fator de atenção para a oferta.
O efeito pode ser diferente no Centro-Sul. Chuvas acima da média nos Estados do Sul podem atrapalhar o ritmo da moagem, mas, ao mesmo tempo, beneficiar o desenvolvimento dos canaviais e aumentar a disponibilidade de matéria-prima para a temporada seguinte.
Mesmo diante dos riscos externos, Murilo Mello, chefe da mesa de açúcar da Hedgepoint, avalia que os fluxos comerciais ainda apresentam margem confortável. Em um exercício mais restritivo, com mix açucareiro de 47,1% no Centro-Sul e aumento de 1 milhão de toneladas nas importações indianas, o excedente global cairia de 3 milhões para 1,5 milhão de toneladas. “Ainda é um superávit relevante”, afirmou.
Essa disponibilidade também pesa sobre as cotações. Segundo Mello, preços entre 17 e 18 centavos de dólar por libra-peso podem estar acima do nível indicado pelos fundamentos atuais, considerando o volume que o Brasil tem condições de colocar no mercado.
Mix de 50% amplia produção na próxima temporada
Para 2027/28, a Hedgepoint considera moagem de 650 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, além de 5 milhões de toneladas adicionais, com ATR médio de 139,2 quilos por tonelada. O mix destinado ao açúcar subiria para 50%, ante 47,7% projetados para 2026/27.
Com essas premissas, a produção alcançaria 43 milhões de toneladas, crescimento de 3,1 milhões de toneladas sobre as 39,9 milhões previstas para a temporada anterior. Os números ainda são tratados pela consultoria como uma primeira estimativa para o ciclo.
A projeção contempla também 15,5 bilhões de litros de etanol anidro e 23,9 bilhões de litros de hidratado em 2027/28. Para 2026/27, são esperados 14,7 bilhões e 23,4 bilhões de litros, respectivamente.
A relação de preços entre açúcar e etanol favorece atualmente maior direcionamento da cana para a commodity. Uma deterioração adicional da safra indiana poderia reforçar esse incentivo, embora a disponibilidade de matéria-prima continue sendo determinante para definir quanto as usinas conseguirão ampliar o mix.
Grãos também ficam expostos às mudanças no clima
O clima também entrou nas projeções da Hedgepoint para os grãos. A consultoria analisou as perspectivas para as safras dos Estados Unidos e da América do Sul, em um cenário no qual a expansão dos biocombustíveis amplia a conexão entre os mercados agrícola e de energia. Com o avanço do calendário da safra sul-americana, a distribuição das chuvas passa a ocupar espaço maior nas projeções para as commodities. A evolução do El Niño será acompanhada tanto pelos mercados de grãos quanto pelo sucroenergético, com efeitos que dependerão da intensidade e da localização das alterações no regime de precipitações.
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