Oferta menor e fundos sustentam recuperação do açúcar
Índia, Tailândia e Europa reforçam riscos de oferta, enquanto fundos ampliam posições compradas
O mercado internacional de açúcar ganhou novos elementos de sustentação após meses marcados por expectativas de oferta elevada e pressão sobre as cotações. O contrato outubro de 2026 chegou a 18,26 centavos de dólar por libra-peso, maior nível dos últimos 27 meses, antes de encerrar a 17,60 centavos. A mudança ocorre em meio à revisão das perspectivas de produção em importantes regiões produtoras e à alteração do posicionamento dos fundos.
Em artigo, Arnaldo Luiz Corrêa, diretor da Archer Consultoria, chama a atenção para uma combinação de fatores que modificou o cenário observado até recentemente. Índia, Tailândia e União Europeia enfrentam perspectivas menos favoráveis de produção, enquanto o Brasil mantém o etanol como alternativa para a destinação da cana.
A Índia passou a ocupar posição central nessa mudança. O preço doméstico do açúcar avançou de 48,18 rúpias por quilo em 20 de julho para 55,70 rúpias em 20 de agosto. Segundo Corrêa, os valores correspondem a aproximadamente 22,75 e 26 centavos de dólar por libra-peso, respectivamente, considerando câmbio próximo de 95 rúpias por dólar.
A produção indiana, inicialmente estimada pelos Estados produtores em 34,3 milhões de toneladas, passou a ser projetada em 30,6 milhões, diante de doenças nos canaviais e excesso de chuvas. O governo também relacionou a valorização do açúcar ao aumento da demanda antes das festividades, ao aperto da oferta mundial e à retenção de estoques.
Índia passa de potencial exportadora a importadora
Diante da alta dos preços, Nova Délhi adotou limites para estoques de distribuidores e grandes consumidores, intensificou a fiscalização nas usinas e recomendou a antecipação do início da moagem para 15 de outubro. A principal mudança para o mercado internacional, porém, foi a autorização para importar, sem tarifa, 1 milhão de toneladas de açúcar bruto.
O movimento representa uma inversão em relação às discussões de poucos meses atrás, quando o mercado avaliava quanto açúcar a Índia poderia exportar. Agora, a necessidade de importação acrescenta pressão a um balanço global que também enfrenta revisões negativas em outros importantes produtores.
Na Tailândia, a Czarnikow estima produção de 9,8 milhões de toneladas em 2026/27. A perspectiva considera chuvas abaixo da normalidade, problemas provocados pela White Cane Leaf Disease, doença que reduz a produtividade, preços menos remuneradores da cana e o risco de condições mais secas caso se confirme um El Niño.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, USDA, trabalha com redução de aproximadamente 16% na produção tailandesa em 2026/27. Um eventual El Niño forte adicionaria incerteza ao cenário porque tende a reduzir as chuvas tanto na Tailândia quanto na Índia.
Na União Europeia, a produção é estimada em aproximadamente 14,9 milhões de toneladas, quase 2,8 milhões abaixo da safra anterior. A redução da área cultivada com beterraba, somada à seca e ao calor, limita as perspectivas. A Czarnikow trabalha com projeção ainda menor, de 13,9 milhões de toneladas para a UE-27.
Etanol mantém alternativa para a cana brasileira
No Brasil, o etanol adicionou outro componente ao cenário. Corrêa destaca a aprovação pelo Congresso do PLP 114/2026, que aguarda sanção presidencial e prevê que eventuais reduções tributárias ou subvenções aos combustíveis fósseis preservem a vantagem competitiva dos biocombustíveis.
O texto também prevê subvenção de R$ 1,2 bilhão ao etanol hidratado e possibilidade de compensação de até R$ 750 milhões por meio de créditos de PIS/Cofins, segundo as informações citadas no artigo.
Para o mercado de açúcar, o ponto relevante está na manutenção da competitividade do etanol diante de eventuais intervenções sobre o preço da gasolina. A possibilidade de direcionar uma parcela maior da cana ao biocombustível continua, portanto, como variável para as projeções de disponibilidade de açúcar brasileiro.
Além dos fundamentos, o posicionamento financeiro mudou. Os fundos aparecem comprados em 77.737 contratos, equivalentes a aproximadamente 3,95 milhões de toneladas de açúcar. A posição contrasta com o período anterior, quando esses participantes mantinham exposição vendida relevante.
Outro ponto observado por Corrêa é a concentração de opções de compra, as chamadas calls, em preços de exercício imediatamente acima das cotações atuais. Entre 18 e 20 centavos de dólar por libra-peso existem 76.729 calls em aberto, equivalentes a aproximadamente 3,90 milhões de toneladas. Apenas no exercício de 20 centavos estão concentradas 26.381 calls, cerca de 1,34 milhão de toneladas.
Opções aumentam atenção sobre faixa dos 20 centavos
A existência dessas posições não significa que todo esse volume terá de ser comprado no mercado futuro. A posição em aberto não permite identificar isoladamente compradores, vendedores, nível de proteção ou o delta das opções. Ainda assim, a concentração torna essa faixa de preços mais sensível aos movimentos das cotações.
Caso parte relevante das calls esteja vendida por participantes que realizam hedge dinâmico, a aproximação dos preços de exercício pode exigir compras progressivas de contratos futuros para ajustar a proteção. Esse mecanismo, conhecido como gamma hedging, pode reforçar o movimento comprador conforme o mercado se aproxima dos respectivos níveis.
No momento analisado por Corrêa, restavam 25 dias para o vencimento das opções e a volatilidade implícita estava próxima de 34%. A combinação entre prazo, preço e volume de posições ajuda a explicar por que a região entre 18 e 20 centavos passou a receber maior atenção.
Para as usinas, a recuperação das cotações também recoloca em discussão a gestão das fixações já realizadas. Corrêa alerta para o risco de recomprar posições anteriormente protegidas apenas na expectativa de vender novamente a preços superiores.
Uma fixação realizada dentro de uma política de hedge protege margem, orçamento ou fluxo de caixa nas condições existentes no momento da decisão. Desfazê-la em função da expectativa de novas altas transforma a proteção em uma exposição direcional ao mercado. Para empresas que ainda enxergam espaço de valorização, o diretor da Archer aponta como alternativa a manutenção da fixação combinada à compra de uma opção de compra fora do dinheiro. Dessa forma, o custo adicional fica limitado ao prêmio da opção, enquanto o preço protegido é preservado e permanece a possibilidade de participação em uma eventual alta.
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