Irrigação exige nova estratégia para ampliar vida útil do canavial
Sistema de alto desempenho busca manter produtividade elevada por até 14 anos
A adoção da irrigação na cana-de-açúcar exige uma mudança que vai além do fornecimento de água. Para sustentar produtividades elevadas ao longo dos ciclos, o sistema demanda ajustes no preparo do solo, nutrição, escolha varietal, manejo de pragas e plantas daninhas e gestão de falhas. A mudança de estratégia foi defendida por Caio Spada de Toledo Piza, engenheiro agrônomo e diretor técnico da Verticana, durante o IRRIGACANA 2026.
Segundo Piza, um dos erros mais comuns ocorre quando a irrigação é incorporada mantendo as mesmas práticas adotadas nas áreas de sequeiro. A disponibilidade hídrica pode elevar rapidamente a produção, sobretudo em regiões sujeitas a déficit, mas os resultados dos primeiros anos não são suficientes para medir a eficiência do sistema. “O sistema irrigado não é sequeiro mais água”, afirmou.
Como referência de alto desempenho, o diretor apontou uma média próxima de 120 toneladas por hectare ao longo de 12 a 14 cortes. O desafio aparece principalmente depois do sexto ou sétimo corte, quando manter produtividades acima de 130 toneladas por hectare se torna mais difícil.
O agrônomo compara os dois modelos a provas de corrida. Enquanto o manejo do sequeiro foi concebido para sustentar cinco ou seis cortes, como um sprint, o irrigado precisa ser planejado como uma maratona. A maior longevidade também dilui o custo de formação da lavoura entre um número maior de cortes.
Custo por tonelada ganha espaço na análise
Essa mudança alcança também a avaliação econômica. Piza defendeu que sistemas irrigados sejam analisados pelo custo por tonelada produzida, e não apenas pelo desembolso por hectare. A irrigação aumenta o investimento e pode exigir maior utilização de insumos, mas amplia a produção e, quando bem conduzida, tende a reduzir o custo por tonelada.
Uma das principais mudanças agronômicas começa antes do plantio. O perfil do solo precisa ser preparado para permitir maior exploração das raízes em profundidade. A lógica é que não adianta fornecer água a 30, 40 ou 60 centímetros se não houver raízes capazes de aproveitar a umidade disponível nessas camadas.
O diretor afirmou que práticas de calagem, gessagem e fosfatagem precisam ser redimensionadas para as exigências do irrigado. O preparo também deve considerar nutrientes de menor mobilidade e a possibilidade de correção de micronutrientes, aproveitando a implantação para distribuí-los em profundidade.
Solo e variedade entram na estratégia de longo prazo
Outro ponto destacado foi o componente biológico do solo. Além dos aspectos químicos e físicos, o especialista defendeu maior atenção à microbiologia, inclusive com o uso de diferentes espécies de cobertura durante a reforma, buscando melhorar de forma integrada as condições do perfil.
O monitoramento da atividade microbiológica também pode entrar nessa avaliação. Na apresentação, o agrônomo citou a tecnologia BioAS, desenvolvida pela Embrapa inicialmente para grãos e já utilizada em áreas de cana-de-açúcar, que permite avaliar enzimas relacionadas à atividade biológica do solo.
A escolha varietal segue a mesma lógica. Em vez de priorizar materiais que apresentem elevada resposta apenas nos primeiros cortes, o sistema demanda variedades capazes de sustentar resultados ao longo do ciclo. Entre os atributos considerados estão perfilhamento, manutenção da população de colmos, sanidade, vigor e resistência ao tombamento e ao acamamento.
A irrigação também altera a relação da cultura com pragas e plantas daninhas. A presença constante de umidade pode favorecer organismos indesejáveis, mas acelera simultaneamente o desenvolvimento e o fechamento do canavial, reduzindo o período crítico de interferência das invasoras. Por isso, o sistema exige monitoramento mais prolongado e intervenções ajustadas à nova dinâmica da lavoura.
Falhas exigem intervenção mais seletiva
A gestão de falhas é outro ponto que muda no sistema irrigado. Segundo o especialista, o plantio deve ser conduzido com maior rigor para reduzir a necessidade de recomposição. Quando houver falhas, a prioridade deve estar em canaviais jovens, de alto potencial produtivo, e em trechos superiores a três metros.
A recomendação apresentada é realizar a recomposição em até 40 dias após a colheita. O desenvolvimento mais rápido das plantas vizinhas pode provocar sombreamento e reduzir a sobrevivência das mudas utilizadas para preencher espaços menores. Por isso, a avaliação deve considerar o metro efetivamente recuperado, e não apenas a extensão replantada.
Ao reunir essas mudanças, Piza reforçou que manejo da água e manejo agronômico precisam avançar juntos. Sistemas capazes de fornecer a lâmina adequada não entregam todo o potencial quando as raízes encontram limitações físicas, químicas ou biológicas no perfil do solo.
“A água viabiliza o teto produtivo. O manejo agronômico adaptado determina se você vai alcançá-lo e por quantos anos”, ressaltou.
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