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El Niño pode abrir espaço para grãos brasileiros na Ásia

Frete dos EUA pode favorecer soja e milho do Brasil no mercado asiático

O avanço do El Niño pode favorecer a competitividade dos grãos brasileiros no mercado asiático, mas também amplia os riscos para a safra 2026/27. A avaliação é de Alê Delara, consultor de agronegócio e professor de pós-graduação/MBA, em análise publicada no portal de inteligência de mercado da Czarnikow.

O Brasil pode ganhar espaço caso novas restrições no Canal do Panamá encareçam os embarques dos Estados Unidos para a Ásia. As principais rotas que ligam Santos, Paranaguá e os portos do Arco Norte à China não passam pelo canal, o que reduz a exposição brasileira a esse gargalo.

Na soja, fretes mais altos podem reduzir a competitividade norte-americana e fortalecer os prêmios pagos em outras origens. No milho, o efeito tende a ser mais relevante porque o transporte representa uma parcela maior do preço final. A capacidade brasileira de atender essa demanda dependerá, porém, da oferta disponível e do consumo doméstico, inclusive para ração animal e etanol.

Seca restringe operações no Panamá

O Canal do Panamá depende da água dos lagos Gatún e Alhajuela para operar as eclusas. Diante da redução das chuvas, a Autoridade do Canal anunciou medidas preventivas e limitará o calado máximo dos navios Neopanamax a 48 pés em setembro e 47,5 pés em outubro.

A seca de 2023/24 dá dimensão do impacto sobre o comércio. Embarques de grãos do Golfo do México para a Ásia chegaram a ser desviados pelo Canal de Suez, acrescentando mais de 5 mil milhas náuticas e cerca de duas semanas ao percurso.

Segundo a Autoridade do Canal do Panamá, o volume de grãos transportado pela rota caiu de 35,8 milhões de toneladas em 2023 para 13,3 milhões em 2024. Em 2025, subiu para 24,7 milhões, ainda cerca de 31% abaixo do nível anterior à seca.

El Niño aumenta atenção sobre a safra brasileira

A vantagem logística brasileira esbarra nos efeitos do próprio El Niño sobre a produção. Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos citados por Delara indicam que a probabilidade de o fenômeno se tornar muito forte subiu de 93% para 97%. Há ainda 75% de chance de atingir, entre outubro e dezembro, a maior intensidade desde 1950.

No Brasil, a análise aponta possibilidade de períodos mais secos no Matopiba e redução moderada das chuvas no Centro-Oeste. A irregularidade pode atrasar o plantio da soja e reduzir a janela para o milho safrinha.

Como o milho é semeado após a colheita da oleaginosa, um atraso pode levar parte do plantio para maio ou junho, aumentando a exposição à seca de inverno e às geadas. No Sul, a preocupação é com o excesso de chuva, doenças e tempestades.

Os efeitos também chegam aos custos. O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que utiliza e, segundo dados do USDA citados por Delara, os preços dos produtos entregues ao país subiram cerca de 33% desde março.

Assim, prêmios mais altos para os grãos brasileiros não representam, isoladamente, ganho de margem. O resultado dependerá da produtividade e do comportamento dos custos de produção.

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