Cana enfrenta década decisiva entre ganhos de produtividade e novos riscos
Avanço do milho, energia solar e custos pressionam setor, avalia Fava Neves
A estagnação da produtividade agrícola, a concorrência do etanol de milho e o avanço de novas tecnologias energéticas deverão impor desafios à canavicultura brasileira na próxima década. Embora existam perspectivas favoráveis para o açúcar e oportunidades de ampliar o consumo de biocombustíveis, a capacidade de reduzir custos será determinante para preservar a rentabilidade de produtores e usinas.
A avaliação é do professor e especialista em inteligência de mercado Marcos Fava Neves, que apresentou um balanço das oportunidades e ameaças ao setor sucroenergético durante o Vision Tech Summit – A Usina do Amanhã 2026, realizado nos dias 7 e 8 de outubro, em Ribeirão Preto – SP.
Para o especialista, a atividade canavieira deverá manter dimensão próxima à atual nos próximos dez anos, com maior participação do açúcar no processamento da matéria-prima e perda de espaço do etanol de cana para o biocombustível de milho. O cenário exigirá investimentos em tecnologia, disciplina financeira e maior eficiência operacional.
Produtividade agrícola concentra maior oportunidade
Nas últimas duas décadas, culturas como soja, milho, algodão e café registraram avanços expressivos de produtividade, enquanto a canavicultura apresentou desempenho limitado, apesar da valorização das terras e do aumento dos custos de produção.
Ao comparar a evolução das culturas, Fava Neves afirmou que a cana “andou de lado, andou para trás”. Para reverter esse quadro, aposta na biotecnologia, nas sementes de cana, na inteligência artificial e na agricultura de precisão, com aplicação localizada de insumos e gestão das lavouras por metro quadrado.
O professor considera possível alcançar ganhos de 30% a 40% na produtividade por hectare e no teor de açúcar da planta. O impacto seria relevante porque a etapa agrícola representa aproximadamente 70% dos custos de produção. Maior rendimento por área também permitiria reduzir as distâncias médias de transporte da matéria-prima até as unidades industriais.
Açúcar oferece perspectivas de expansão
O mercado internacional de açúcar está entre os fatores favoráveis ao setor. O consumo mundial poderá passar de 180 milhões de toneladas em 2024/25 para 198 milhões em 2034/35, impulsionado pelo crescimento populacional, pela urbanização e pelo aumento da renda, principalmente na Ásia e na África.
Nesse cenário, as exportações brasileiras poderiam alcançar 45 milhões de toneladas em 2034/35, ante 35 milhões em 2024/25. A participação do país no comércio internacional subiria de 52% para 58%, beneficiada pela competitividade nacional e pela limitada expansão dos investimentos em países concorrentes.
Fava Neves acredita que o Brasil poderá absorver grande parte desse crescimento, embora reconheça riscos associados à tributação de produtos açucarados, às mudanças nos hábitos alimentares e à disseminação de medicamentos para emagrecimento.
Etanol de milho amplia pressão sobre a cana
No mercado de biocombustíveis, a produção brasileira de etanol de milho poderá alcançar 21,8 bilhões de litros em 2034/35, ante 12,1 bilhões em 2025/26, crescimento de aproximadamente 80%. O levantamento apresentado na palestra aponta 27 usinas em operação, 16 unidades autorizadas e outros 16 projetos no país.
A demanda de milho destinada à fabricação do combustível deverá passar de 28,5 milhões para 51,2 milhões de toneladas no período. Embora represente maior concorrência para a cana, o palestrante destacou os efeitos econômicos da interiorização dessa indústria, que movimenta investimentos, gera empregos e favorece atividades ligadas à pecuária, ao biogás e ao biometano.
Para absorver a oferta crescente, ele considera prioritário ampliar a participação do etanol hidratado no mercado brasileiro. Atualmente, o biocombustível responde por cerca de 27% do consumo do ciclo Otto, conforme os dados apresentados. “Já tem o posto, já tem o carro, já tem a pessoa”, afirmou, ao defender condições comerciais mais favoráveis ao etanol. Segundo ele, uma participação de 50% no abastecimento da frota flex criaria demanda superior à capacidade atual de oferta do biocombustível.
Outras oportunidades estão no aumento das misturas de etanol à gasolina em países como Índia e Estados Unidos, além de aplicações na aviação, no transporte marítimo e em máquinas agrícolas. Esses mercados, porém, deverão avançar mais lentamente.
Escassez de mão de obra preocupa o setor
Além da concorrência e dos custos, Fava Neves apontou a dificuldade de contratação como um dos principais entraves às atividades produtivas. O problema, segundo ele, envolve tanto a disponibilidade de trabalhadores quanto a qualificação profissional e a capacidade das empresas de preencher vagas.
Durante a palestra, o professor criticou a possibilidade de mudanças na escala de trabalho sem considerar seus efeitos sobre as empresas. Citou como exemplo uma operação que emprega 50 mil pessoas e que, diante de uma redução da jornada, poderia precisar de 58 mil funcionários para manter o mesmo nível de atividade.
A preocupação, de acordo com ele, não se restringe ao aumento das despesas com pessoal, mas à dificuldade de encontrar trabalhadores para ocupar os novos postos. O problema se soma à dependência brasileira de fertilizantes importados, às limitações de infraestrutura, ao custo do crédito e às incertezas sobre a política econômica.
Os juros elevados também foram destacados pelo especialista como uma das principais dificuldades financeiras do setor, especialmente para empresas com maior endividamento. Oscilações cambiais e dos preços das commodities ampliam a exposição de produtores e usinas.
Energia solar representa ameaça de longo prazo
Entre os riscos tecnológicos, Fava Neves demonstrou preocupação especial com a possibilidade de uma redução acentuada dos custos da energia solar. Para ele, uma inovação que torne a captação dessa fonte extremamente barata poderá afetar a competitividade do etanol e da bioeletricidade produzida a partir da cana.
“Morro de medo da energia solar, pessoal”, afirmou. O professor comparou a cana a uma placa fotovoltaica, por sua capacidade de transformar energia solar em produtos energéticos, e avaliou que uma mudança radical no custo de geração poderá representar ameaça maior do que a expansão dos veículos elétricos.
Em contrapartida, a utilização de combustíveis renováveis produzidos pelas próprias usinas oferece oportunidades para reduzir despesas. Ele citou experiências com máquinas agrícolas movidas a biodiesel, testes com tratores e colhedoras abastecidos com etanol e projetos de produção de biometano a partir de resíduos agroindustriais.
O especialista apresentou como possibilidade substituir, em três anos, um terço do diesel utilizado pelas usinas pelo etanol fabricado nas próprias unidades, dependendo da evolução tecnológica dos motores e da viabilidade econômica da operação.
Outro caminho apontado foi a adoção de modelos produtivos com menor participação de áreas próprias e maior integração com fornecedores de cana. A proposta busca reduzir a necessidade de capital imobilizado na produção agrícola, mantendo o abastecimento das unidades industriais por meio de parcerias com produtores.
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