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Açúcar reage e etanol ainda enfrenta pressão de oferta

Boletim da FG/A aponta mudança nos fundamentos das commodities agrícolas

O mercado de commodities agroindustriais chegou à segunda metade de agosto com sinais distintos entre açúcar, etanol, grãos e fertilizantes. Enquanto o açúcar reagiu com força diante de riscos para a oferta internacional, o etanol hidratado começou a responder ao aumento do consumo, mas ainda convive com produção acima das vendas. Milho e soja receberam suporte do cenário externo, enquanto os fertilizantes apresentaram alívio em parte dos preços internacionais.

A avaliação consta do Boletim de Commodities de agosto da FG/A. No setor sucroenergético, o Centro-Sul processou 313,2 milhões de toneladas de cana até a segunda quinzena de julho, avanço de 2,1% sobre igual período da safra 2025/26. A vantagem, porém, perdeu força em relação aos 4,5% registrados no fim de junho, após a moagem cair 8,4% na segunda metade de julho na comparação anual.

O ATR médio acumulado ficou em 128 quilos por tonelada, alta de 0,3%, enquanto o ATR total alcançou 40,1 milhões de toneladas, crescimento de 2,4%. O mix açucareiro chegou a 44,3%, ainda 7,4 pontos percentuais abaixo dos 51,7% observados no ciclo anterior.

Açúcar ganha força com riscos para a oferta mundial

A produção acumulada de açúcar atingiu 16,9 milhões de toneladas, queda de 12,4% ante a safra anterior. Ao mesmo tempo, a fabricação de etanol de cana avançou 18,1%, para 13,17 milhões de metros cúbicos. Dentro desse volume, o hidratado cresceu 25,4%, para 8,96 milhões de metros cúbicos, enquanto o anidro aumentou 5,1%, para 4,22 milhões.

O movimento mais recente do mix, contudo, mostra uma retomada gradual da produção de açúcar, favorecida pelos prêmios do adoçante em relação ao hidratado. Essa mudança ocorre justamente quando o mercado internacional passou a incorporar maior risco para a oferta.

O contrato de referência do açúcar em Nova York encerrou o período em 17,52 centavos de dólar por libra-peso, valorização mensal de 17,7%. Em reais, a alta foi ainda maior, de 19,4%, para cerca de R$ 2.081 por tonelada, também influenciada pela depreciação cambial.

Na Europa, a continuidade da seca e as temperaturas elevadas aumentaram as preocupações com a produtividade da beterraba. Na Índia, a autorização para importação de 1 milhão de toneladas, em meio à perspectiva de menor disponibilidade doméstica, também reforçou a percepção de risco.

A mudança dos fundamentos provocou forte reação dos fundos especulativos. Em 11 de agosto, foi registrada uma variação semanal de 117 mil lotes nas compras líquidas, o maior movimento desde 2006. Segundo a FG/A, os fundos mantinham posição líquida comprada de 78 mil lotes.

Etanol reage, mas excedente ainda limita preços

No mercado de etanol, os preços começaram a se recuperar depois das mínimas do ano. O indicador diário do Cepea para o hidratado líquido posto Paulínia encerrou o período em R$ 2,36 por litro, alta mensal de 8,6%, depois de chegar a R$ 2,13 por litro.

Nas bombas paulistas, entretanto, o hidratado estava em R$ 3,61 por litro em 22 de agosto, queda mensal de 3,2%, enquanto a gasolina comum custava R$ 6,34. A relação entre os dois combustíveis ficou em 56,9%, nível favorável ao consumo do biocombustível. Na média brasileira, a paridade estava em 69,4%.

A redução dos preços ao consumidor já aparece nas vendas. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostram que o volume comercializado de hidratado em junho cresceu 1,7% sobre maio e 10,7% em relação ao mesmo mês de 2025.

No acumulado da safra 2026/27, as vendas de hidratado avançaram 4% na comparação anual. O crescimento, porém, permanece distante da expansão da produção, de aproximadamente 26% no período. Essa diferença mantém o excedente de oferta como principal fator de pressão sobre as cotações.

A FG/A estima paridade média próxima de 63% ao longo da safra, cinco pontos percentuais abaixo da registrada no ciclo 2025/26. Esse cenário corresponderia a uma valorização de aproximadamente R$ 0,10 por litro sobre o patamar atual de R$ 2,36 por litro do hidratado líquido na média do ciclo.

Milho tem estoques globais no menor nível desde 2013/14

No mercado de milho, a segunda safra brasileira estava com 84,7% da área colhida, percentual 4,6 pontos abaixo do observado no mesmo momento do ciclo anterior. As chuvas acima da média atrasaram a entrada das máquinas em algumas regiões, embora tenham favorecido as lavouras mais tardias.

A produção brasileira é projetada em 143 milhões de toneladas, aumento anual de 1,3%, sustentado principalmente pela expansão da área cultivada. No exterior, o relatório de agosto do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos reduziu a estimativa de produtividade americana após calor e falta de chuva durante a polinização.

Na União Europeia, a seca no oeste do continente provocou novo corte na estimativa de produção. Apesar de ajustes positivos em outras origens elevarem a previsão da safra mundial de 1,297 bilhão para 1,299 bilhão de toneladas, o crescimento do consumo reduziu a projeção dos estoques finais para 274,7 milhões.

A relação entre estoque e consumo caiu para 20,8%, menor nível desde a temporada 2013/14. Em Chicago, o contrato de referência para setembro de 2026 avançou 5,7% no mês, para US$ 4,79 por bushel. No Brasil, o milho chegou a R$ 67,90 por saca em Campinas e R$ 45,20 em Sorriso, com altas mensais de 4% e 6%, respectivamente.

Compras chinesas dão suporte às cotações da soja

Na soja, o mercado internacional voltou as atenções para os Estados Unidos após a conclusão da colheita no Brasil e na Argentina. Apesar dos riscos climáticos, o relatório de agosto do USDA manteve a avaliação de oferta global elevada.

Nos Estados Unidos, a redução esperada na produtividade foi compensada pela expansão da área plantada. A estimativa de produção americana passou de 121,8 milhões para 123 milhões de toneladas. Com isso, a oferta mundial foi projetada em 442,3 milhões de toneladas e a relação estoque e consumo permaneceu em 28,1%.

Outro fator de sustentação foi a retomada das compras chinesas de soja americana. Segundo o boletim, a China já adquiriu mais de 5,7 milhões de toneladas da safra 2026/27, equivalentes a 23% dos 25 milhões de toneladas acordados entre Pequim e Washington.

Depois de atingir máxima anual de US$ 12,48 por bushel, o contrato de referência em Chicago fechou em US$ 12,21, praticamente estável no mês. No mercado brasileiro, a soja alcançou R$ 153,68 por saca em Paranaguá, avanço mensal de 9,7%, enquanto em Sorriso chegou a R$ 129,40, alta de 10,9%.

Ureia recua e fosfatados ainda pressionam os custos

Os fertilizantes tiveram comportamento diferente entre os principais produtos. Em julho, a ureia caiu 11,7% no mercado internacional, para US$ 400 por tonelada, segundo dados do Banco Mundial apresentados pela FG/A. Foi o segundo recuo mensal consecutivo do nitrogenado.

Os fosfatados também registraram a primeira queda de 2026. O TSP recuou 2,2%, para US$ 720 por tonelada, enquanto o DAP caiu 0,3%, para US$ 781. O movimento acompanhou a estabilização do enxofre, que acumulava retração de 17,2% desde a máxima histórica.

No Brasil, a dinâmica ainda refletiu cargas contratadas antes da mudança do mercado externo. Os fosfatados subiram 17,9% em julho, para R$ 3.524 por tonelada. A ureia ficou em R$ 2.308, queda de 1,5%, e o cloreto de potássio em R$ 2.026, alta de 1,5%.

A relação de troca melhorou para a ureia. Em Campinas, caiu de 36,8 para 35,7 sacas de milho por tonelada do insumo. Para os fosfatados, ocorreu o contrário, com a relação subindo de 46,9 para 54,4 sacas por tonelada, aumentando a pressão sobre os custos da safra 2026/27.

As entregas de fertilizantes aos produtores somaram 3,16 milhões de toneladas em maio, volume 14,8% inferior ao registrado um ano antes e o menor para o mês desde 2020. Para 2026, a projeção apresentada no boletim é de 47,2 milhões de toneladas, queda de 4% no ano.

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