Custos e compras tardias pressionam safra 2026/27
Fertilizantes, crédito e demanda por milho pesam nas decisões do produtor
O agronegócio brasileiro caminha para encerrar a safra 2025/26 com produção recorde, mas o próximo ciclo começa a ser planejado em um ambiente de custos mais voláteis, crédito restrito e cautela nas negociações de insumos.
Segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de grãos deve alcançar cerca de 360 milhões de toneladas. A soja responde por quase 180 milhões de toneladas, enquanto as três safras de milho somam 141,7 milhões.
O desempenho da produção contrasta com as incertezas no mercado de insumos. Os fertilizantes voltaram a sofrer pressão internacional neste ano, diante das tensões geopolíticas no Oriente Médio e de gargalos logísticos que afetaram fretes e o gás natural, matéria-prima utilizada na fabricação de nitrogenados.
Dados do setor indicam que pouco mais da metade dos fertilizantes necessários para a próxima safra havia sido contratada até o momento, percentual abaixo do histórico para o período. O atraso pode concentrar compras e entregas mais perto do plantio.
Produtor muda estratégia de compra
Para Marcos Dallagnese, diretor Comercial da Orbia, soja e milho atravessam momentos distintos, o que interfere na estratégia de aquisição de insumos. No caso da soja, entram na conta a recuperação dos preços, a demanda, o desempenho da safra americana e as oscilações cambiais.
“A soja segue em ritmo de recuperação de preços de olho na demanda e safra americana, mas isso também exige do produtor atenção redobrada ao câmbio e ao timing entre a venda do grão e a compra de insumos. Já o milho vive uma transformação estrutural, com a expansão acelerada das usinas de etanol ampliando a disputa pelo grão”, afirma.
O etanol de milho deve consumir cerca de 37,7 milhões de toneladas do cereal na safra 2026/27, crescimento de 36% sobre o ciclo anterior, segundo levantamento do Itaú BBA. O volume representaria aproximadamente 34% da demanda doméstica pelo grão.
A expansão aumenta a concorrência pela matéria-prima entre a indústria de biocombustíveis, as exportações e o setor de proteína animal, deixando os preços domésticos mais sensíveis às oscilações de oferta.
Dallagnese avalia que o cenário também vem mudando a forma como o produtor negocia os insumos, com maior atenção a preço, crédito e prazo.
“Hoje, o produtor precisa olhar para a compra de insumos como parte da gestão financeira da propriedade. Não basta apenas garantir produto, é preciso buscar eficiência, previsibilidade com parceiros confiáveis e ferramentas que ajudem na tomada de decisão ao longo da safra”, diz.
Rastreabilidade amplia exigências
Além das condições de mercado, novas regras comerciais entram no radar do setor. Entre elas está o Regulamento Europeu de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, que estabelece requisitos de rastreabilidade e comprovação de origem para produtos destinados à União Europeia.
Pelo cronograma citado no material, as exigências começam a valer de forma gradual a partir de dezembro de 2026 para grandes e médios operadores e, posteriormente, alcançam os pequenos. Café e soja estão entre as commodities brasileiras sujeitas às novas regras.
A adequação ao EUDR ocorre justamente quando parte dos produtores ainda posterga decisões para a próxima safra. Com pouco mais da metade dos fertilizantes contratados, o ritmo das negociações nos próximos meses deverá indicar o tamanho da concentração das compras antes do plantio.
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