Excelência e dedicação ao associado!

  (16) 99710-6190      (16) 3511-3300        Rua Dr. Pio Dufles - 532 Sertãozinho | SP

Murcha da cana pode reduzir produtividade e ATR, alerta especialista

Diagnóstico correto é decisivo para reduzir perdas no canavial

Mercado, tecnologia e estratégias para elevar a competitividade da produção de cana-de-açúcar marcaram o XII Simpósio Cana, realizado nos dias 15 e 16 de julho, em Piracicaba – SP. Promovido pelo Grupo de Apoio à Pesquisa e Extensão (GAPE), da Esalq/USP, o encontro reuniu pesquisadores, consultores, produtores e representantes da indústria para discutir os principais desafios e perspectivas do setor sucroenergético.

Ao longo de quatro painéis, especialistas analisaram o cenário econômico dos biocombustíveis, as perspectivas para o setor, a integração entre etanol de cana e de milho, além de temas ligados à irrigação, nutrição de plantas, conservação do solo, produtos biológicos, manejo de doenças, fertilizantes e formação de preços da cana. As discussões destacaram estratégias para elevar a eficiência dos canaviais, preservar o potencial produtivo da cultura e ampliar a competitividade diante da crescente demanda por energia renovável.

“O simpósio tratou de um tema de interesse mundial: a energia renovável. A programação valorizou a cana-de-açúcar ao discutir produtividade, qualidade, longevidade dos canaviais e inovação tecnológica. Também aproveitamos o evento para lançar os livros Nutrição e Adubação de Soja Visando Altas Produtividades e Nutrição de Milho Visando Altas Produtividades”, afirmou o professor Godofredo Cesar Vitti, fundador do GAPE.

Murcha exige diagnóstico preciso

Entre os assuntos que despertaram maior atenção esteve a murcha da cana, em razão da complexidade do diagnóstico e dos prejuízos que pode provocar à lavoura. Durante o simpósio, o engenheiro agrônomo Álvaro Sanguino, da ASAS – Álvaro Sanguino Assessoria, explicou que o termo “murcha” não representa uma única doença, mas um conjunto de sintomas que pode ter diferentes origens. Segundo ele, identificar corretamente a causa é fundamental para definir o manejo adequado e evitar gastos desnecessários ou medidas ineficazes.

De acordo com o pesquisador, o secamento das plantas pode estar associado a fungos, como Colletotrichum falcatum, Fusarium e o carvão; a bactérias causadoras da escaldadura e das estrias vermelhas; a pragas como broca-da-cana (Diatraea saccharalis), cigarrinha (Mahanarva fimbriolata), bicudo-da-cana (Sphenophorus Levis) e Migdolus; além de nematoides, seca, compactação do solo e até falhas na dosagem ou na mistura de produtos agrícolas. “O pessoal esqueceu um pouco do que é muda de qualidade e as canas doentes se tornam mais sensíveis ao problema”, afirmou Sanguino. Para ele, o acompanhamento frequente das áreas permite diferenciar a origem dos sintomas e direcionar o controle de forma mais eficiente.

O palestrante ressaltou que a posição do secamento na planta também auxilia na identificação da causa. Enquanto o Colletotrichum normalmente evolui do meio do colmo para a base, o carvão, a escaldadura, as estrias vermelhas, a cigarrinha, o Sphenophorus Levis e o Migdolus costumam provocar sintomas que avançam do ponteiro para baixo. Já os danos causados pela broca variam conforme o ponto de ataque, enquanto seca e compactação do solo podem produzir sintomas semelhantes aos de doenças, aumentando o risco de interpretações equivocadas.

Colletotrichum provoca perdas expressivas

Entre os agentes associados à murcha, Sanguino destacou o fungo Colletotrichum falcatum, responsável pela podridão vermelha do colmo e pela chamada antracnose, também conhecida como murcha do colmo. Segundo a apresentação, o patógeno está presente praticamente em todas as regiões produtoras de cana-de-açúcar do mundo e é facilmente encontrado nos canaviais brasileiros.

A evolução da infecção acompanha o ciclo da cultura. As primeiras ocorrências surgem entre novembro e março, favorecidas pelas chuvas, quando aparecem lesões avermelhadas nas nervuras das folhas +4 e +5. Em abril e maio, passam a ser observados vasos avermelhados no interior dos entrenós atacados, seguidos pelo murchamento dos internódios. Entre junho e julho, um dos sinais mais característicos é a presença de vários entrenós murchos com o ponteiro ainda verde, característica que auxilia na diferenciação em relação a outros agentes. Nas fases mais avançadas, entre agosto e outubro, predominam colmos secos ou apodrecidos.

Outro aspecto destacado pelo pesquisador é que, embora existam fontes de resistência dentro do gênero Saccharum, essa característica ainda foi pouco explorada pelos programas de melhoramento genético. Na prática, todas as variedades comerciais apresentam algum grau de suscetibilidade ao fungo, sendo que os maiores prejuízos costumam ocorrer nas cultivares colhidas do meio para o final da safra.

Segundo Sanguino, nessas condições as perdas podem variar de 20% a 30% na produtividade e de 30% a 40% no ATR. Os dados apresentados durante a palestra mostram que, em situações de alta incidência, a redução da produtividade pode chegar a 50%, enquanto as perdas de ATR variam entre 10% e 50%. O patógeno também compromete a brotação das soqueiras e pode provocar falhas de até 30% quando colmos infectados são utilizados como mudas, inclusive na produção de mudas pré-brotadas (MPBs).

Resultados obtidos em três áreas da Unialco cultivadas com a variedade SP81-3250 evidenciaram o impacto da infecção sobre a qualidade da matéria-prima. No Sítio Frutalzinho, o ATR caiu de 106,48 para 73,98 nas plantas infectadas. Em São Sebastião, a redução foi de 101,51 para 75,92 e, na Estância Santa Amélia, de 76,66 para 74,53. Os resultados reforçam que o Colletotrichum compromete não apenas a produtividade, mas também a concentração de açúcares da cana destinada à indústria.

Manejo deve priorizar prevenção

Sanguino ressaltou que as medidas de controle dependem da origem da murcha. Quando a causa está relacionada a insetos, o manejo deve ser direcionado às pragas; nos casos provocados por doenças, são necessárias estratégias fitossanitárias específicas; já situações associadas à seca ou à compactação do solo exigem correções no manejo e práticas voltadas à conservação da área. Por isso, a identificação correta da causa continua sendo a principal ferramenta para reduzir perdas e evitar intervenções desnecessárias.

No caso do Colletotrichum falcatum, as recomendações incluem antecipar a colheita em áreas com histórico da doença, reduzir os resíduos deixados após a colheita e diminuir o potencial de inóculo presente na palhada. Segundo a apresentação, variedades colhidas até junho têm registrado menor incidência do problema. Outra medida importante é utilizar mudas sadias e evitar material propagativo proveniente de áreas infectadas.

O pesquisador também apresentou resultados promissores com o tratamento da palhada. Segundo ele, produtos biológicos podem ser empregados em áreas com baixa infestação, enquanto locais com maior pressão do fungo podem exigir uma aplicação inicial de fungicida químico para reduzir o inóculo, seguida por estratégias de controle biológico.

Entre os produtos avaliados, o mancozebe (ou mancozeb), fungicida de contato do grupo químico dos ditiocarbamatos, aplicado sobre a palhada em associação a um produto biológico no início do período chuvoso, apresentou bom desempenho na redução da incidência da doença. Sanguino ressaltou, porém, que ainda são necessários novos estudos para definir as doses mais adequadas e os períodos de aplicação capazes de maximizar a eficiência desse manejo.

Compartilhe este artigo:

LinkedIn
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *