Bioinsumos avançam, mas resposta varia entre canaviais
Estudos apontam ganhos de até 14% em TCH e 15% em açúcar
O avanço dos bioinsumos na canavicultura vem acompanhado de uma produção científica cada vez maior, mas os resultados ainda dependem da variedade, do ambiente e da qualidade do manejo. Essa foi uma das principais conclusões apresentadas pelo professor Carlos Alexandre Costa Crusciol, da Unesp, durante a primeira edição do Fator Biológico, promovida pela Canaplan, na última quinta-feira (30), em Ribeirão Preto – SP.
Logo no início da palestra, o pesquisador ressaltou que os produtos biológicos não substituem as práticas agronômicas tradicionais. “O biológico ainda é uma tecnologia complementar. Não é uma tecnologia que vai resolver totalmente o problema”, afirmou, ao defender que essas ferramentas sejam utilizadas em conjunto com uma boa nutrição e um manejo adequado do solo.
Dados reunidos pelo pesquisador mostram que foram publicados 342,6 mil trabalhos sobre microrganismos na agricultura entre 1981 e 2024. O volume passou de cerca de 17 mil estudos entre 1981 e 1990 para aproximadamente 65 mil apenas no período de 2023 a 2024, sinal do crescimento acelerado das pesquisas nessa área.
A cana-de-açúcar aparece entre as culturas mais estudadas, com 33,6 mil publicações relacionadas ao tema. O número fica abaixo dos registros para soja (104 mil trabalhos) e milho (50,6 mil), mas supera os citros (30,5 mil) e o café (1,68 mil).
Fixação pode fornecer até 130 kg de nitrogênio
Um dos principais focos da apresentação foi a fixação biológica de nitrogênio (FBN). Segundo Crusciol, estudos científicos indicam que esse processo pode responder por 12% a 72% do nitrogênio absorvido pela cana, dependendo da variedade e do ambiente de produção. Em determinadas condições, a contribuição pode chegar a 130 kg de N por hectare ao ano.
O interesse pelo tema também aparece no volume de pesquisas. As publicações sobre FBN em canaviais passaram de 2,5 mil no período entre 1900 e 1970 para 4.360 entre 1971 e 1990. O total atingiu 11,5 mil entre 2001 e 2010, avançou para 17,8 mil entre 2011 e 2020 e permaneceu elevado, com 17,1 mil trabalhos entre 2021 e 2024.
Apesar do potencial, o pesquisador alertou que a retirada parcial ou total do fertilizante nitrogenado ainda não pode ser feita de maneira uniforme. A capacidade de interação com as bactérias varia entre as variedades, e ainda faltam estudos que indiquem quais materiais conseguem aproveitar melhor a fixação biológica.
A disponibilidade de água, o teor de nitrogênio no solo e o estágio de desenvolvimento da planta também interferem diretamente na colonização. Em solos mais ricos em nitrogênio, por exemplo, raízes e colmos apresentam menor população de bactérias fixadoras. Períodos secos também reduzem a colonização por parte desses microrganismos.
O professor exemplificou que um solo com 12% de argila pode armazenar aproximadamente 2,5 toneladas de nitrogênio por hectare na camada de zero a 50 centímetros. Como a mineralização média gira em torno de 2% ao ano, apenas uma pequena parcela desse estoque fica disponível às plantas. Em solos com 50% de argila, essa reserva pode variar de 7 a 18 toneladas de nitrogênio por hectare.
Bacillus amplia produtividade de colmos e açúcar
Os resultados apresentados com bactérias solubilizadoras de fósforo mostram que o efeito dos biológicos vai além da disponibilização do nutriente. Em aplicação via corte de soqueira, o tratamento com Bacillus subtilis elevou a produtividade de colmos de 116,8 para 129,9 t/ha, aumento de 13,1 t/ha (11%). A produtividade de açúcar passou de 17,5 para 19,8 t/ha, ganho de 2,3 t/ha (13%), enquanto o ATR subiu de 150,3 para 152,3 kg por tonelada de cana.
A associação entre Bacillus subtilis e Bacillus megaterium também apresentou resultados positivos, elevando a produtividade para 126,8 t/ha, incremento de 10 t/ha (9%) sobre a testemunha. A produção de açúcar chegou a 19,3 t/ha, alta de 10%.
No sulco de plantio, Bacillus subtilis aumentou a produtividade de 102,7 para 116,6 t/ha, acréscimo de 13,9 t/ha (14%). A produtividade de açúcar passou de 10,1 para 11,6 t/ha, crescimento de 15%. Com a combinação das duas bactérias, a produção atingiu 113,3 t/ha, enquanto o ATR permaneceu praticamente estável, variando entre 98,1 e 100,5 kg por tonelada.
Correção do solo continua sendo decisiva
Ao comentar os resultados obtidos com Azospirillum, o especialista destacou que os bioinsumos dependem de um ambiente favorável para expressar seu potencial. “Se eu não fizer a base bem-feita, não tem jeito”, afirmou, ao apresentar estudos que mostraram respostas significativamente superiores em áreas onde a correção do solo foi realizada antes da aplicação dos produtos biológicos.
Na aplicação em soqueira, o fósforo moderadamente lábil aumentou de 101 para 116 mg/kg, enquanto a atividade da fosfatase ácida passou de 85 para 116 mg de p-nitrofenol/kg/h, indicando maior disponibilidade do nutriente. No sulco de plantio, a atividade enzimática também cresceu, alcançando 143,6 mg/kg/h com Bacillus subtilis. Ao encerrar a palestra, o pesquisador apontou que o principal desafio agora é tornar as recomendações mais específicas para cada material genético. “Nós vamos precisar classificar essas variedades. Se conseguirmos saber quais realmente fixam mais nitrogênio, poderemos reduzir a adubação de forma muito mais precisa”, concluiu.
Compartilhe este artigo:
Veja também:
Você também pode gostar
Confira os artigos relacionados: