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Aquecimento em São Paulo amplia riscos para a produção agrícola

Estudo do IAC aponta alta das temperaturas e chuvas recordes em Campinas

O aumento das temperaturas, principalmente durante a noite, e a ocorrência de chuvas extremas estão entre os principais sinais de mudança no comportamento climático do Estado de São Paulo. Análises do Instituto Agronômico (IAC), com base em séries históricas e registros recentes, indicam aquecimento persistente, embora não haja evidências robustas de redução contínua das precipitações.

Segundo o instituto, as temperaturas apresentam elevação próxima de 0,02°C por ano, equivalente a até 2°C em um século. O avanço é mais acentuado nas mínimas noturnas, condição que pode favorecer a sobrevivência de pragas e patógenos entre safras, além de aumentar o estresse térmico sobre lavouras e rebanhos.

“Esse padrão revela noites cada vez mais quentes, redução da ocorrência de frio intenso e geadas, além de maior estresse térmico sobre a agricultura e os ecossistemas”, afirma Angelica Prela Pantano, pesquisadora do IAC, vinculado à Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA) e à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Os dados também mostram forte irregularidade das chuvas, influenciada por fenômenos como El Niño e La Niña. Em setembro de 2026, Campinas registrou 269,5 milímetros de precipitação, maior volume da série histórica para o mês, cuja média fica entre 65 e 70 milímetros. O acumulado superou registros extremos observados nas décadas de 1920, 1940 e 1980.

De acordo com os pesquisadores, o episódio ocorreu em um contexto de temperaturas elevadas e condições atmosféricas favoráveis à formação de chuvas intensas. O instituto ressalta, porém, que um evento isolado não comprova uma mudança climática, embora seja compatível com projeções de maior intensidade das precipitações extremas em uma atmosfera mais aquecida.

Calor aumenta pressão sobre lavouras e rebanhos

Em agosto, as temperaturas máximas ficaram acima da média climatológica em praticamente todo o território paulista, com desvios superiores a 2°C em áreas do Norte, Nordeste e Leste. No Norte e Noroeste, as máximas médias variaram entre 31,6°C e 35,4°C, enquanto o Sul e as regiões de maior altitude apresentaram condições mais amenas.

O calor durante o período seco intensifica a evapotranspiração e acelera a perda de umidade do solo, aumentando a demanda por água nas lavouras. Também amplia a vulnerabilidade das culturas de sequeiro e favorece condições associadas à ocorrência de incêndios rurais.

Na pecuária, temperaturas elevadas durante o dia, combinadas com noites mais quentes, dificultam a dissipação do calor pelos animais. Esse quadro pode comprometer o consumo alimentar e o desempenho produtivo, sobretudo em sistemas intensivos.

A primeira quinzena de setembro, entretanto, apresentou comportamento diferente. Embora as máximas médias tenham permanecido acima de 28°C em partes do Norte e Noroeste, as anomalias ficaram entre 2°C e 8°C abaixo dos valores climatológicos em grande parte do Estado.

A redução temporária do calor, associada às precipitações, favoreceu a recuperação da umidade do solo, o estabelecimento das culturas de verão e o desenvolvimento das pastagens. Em contrapartida, a persistência de umidade elevada aumentou os riscos de doenças fúngicas e bacterianas, além de dificultar operações mecanizadas e favorecer processos de erosão e compactação do solo.

Chuvas recordes não eliminam déficit hídrico

Apesar das precipitações expressivas de setembro, a recuperação dos recursos hídricos paulistas ainda é insuficiente para compensar os déficits acumulados nos últimos anos. O Sistema Cantareira operava com aproximadamente 40% de sua capacidade no período analisado, acima do nível registrado na mesma época de 2025, mas distante de uma situação considerada confortável.

A avaliação utiliza o Índice de Precipitação Padronizada (SPI) de 24 meses, indicador que considera o comportamento das chuvas ao longo de dois anos e permite acompanhar condições relacionadas à recarga de aquíferos, às vazões dos rios e ao armazenamento dos reservatórios.

Em Campinas, o índice permaneceu predominantemente negativo entre 2019 e 2024, evidenciando um período prolongado de déficit hídrico. Para os pesquisadores, a recuperação depende não apenas do volume acumulado, mas também da distribuição das chuvas ao longo do tempo.

As precipitações intensas também provocaram alagamentos e enxurradas, especialmente em áreas urbanas com elevada impermeabilização do solo e drenagem insuficiente. O assoreamento de córregos, rios e reservatórios agrava esse cenário ao reduzir a capacidade de armazenamento e escoamento da água.

Diante desses resultados, o IAC destaca a necessidade de ampliar a rede oficial de estações meteorológicas e integrar o acompanhamento das condições climáticas à gestão dos riscos agrícolas e dos recursos hídricos no Estado.

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