Guia orienta empresas a se preparar para impactos do El Niño
CNI recomenda uso de dados climáticos para reduzir riscos à produção
O avanço das ferramentas de monitoramento climático tem permitido que empresas antecipem decisões para reduzir os impactos de eventos extremos sobre a produção. Com mais de 90% de probabilidade de o fenômeno El Niño permanecer ativo até o início de 2027, segundo projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançou o Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, com orientações para fortalecer a resiliência das cadeias produtivas diante das mudanças climáticas.
A publicação recomenda que informações climáticas passem a integrar o planejamento estratégico das empresas, permitindo ajustes operacionais antes que ocorram perdas provocadas por secas, chuvas intensas, ondas de calor ou outros eventos extremos. O objetivo é reduzir impactos financeiros, garantir a continuidade das operações e ampliar a competitividade da indústria brasileira em mercados cada vez mais atentos às práticas de sustentabilidade.
Segundo levantamento da CNI, cada aumento de 0,1°C na temperatura média global pode gerar um impacto de R$ 56 bilhões para a economia brasileira. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também projeta que o El Niño poderá elevar as temperaturas no Centro-Sul e Sul do País para faixas entre 30°C e 35°C, com desvios de até 10°C acima da média esperada para a época do ano.
“Em um mercado internacional que exige cada vez mais responsabilidade ambiental e social, garantir que a produção continue funcionando sem interrupções não apenas evita prejuízos, mas fortalece a reputação e a competitividade das empresas brasileiras com parceiros globais”, afirma o superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo.
Quatro eixos para reduzir vulnerabilidades
As orientações da CNI estão organizadas em quatro frentes. A primeira recomenda ampliar a visibilidade da cadeia de suprimentos, com o mapeamento de ativos e fornecedores localizados em áreas sujeitas a riscos climáticos, permitindo antecipar vulnerabilidades e preservar o abastecimento de insumos.
Outro eixo propõe desenvolver rotas logísticas alternativas e manter estoques estratégicos para reduzir os impactos provocados por secas, enchentes e interrupções no transporte. O documento também orienta que água e energia passem a ser tratadas como ativos essenciais para a continuidade dos negócios, e não apenas como custos operacionais.
A quarta recomendação destaca o uso de sistemas de monitoramento e dados climáticos em tempo real para apoiar a tomada de decisões, aperfeiçoar o planejamento e reduzir incertezas diante de cenários cada vez mais instáveis.
Agronegócio está entre os setores mais expostos
Entre os segmentos avaliados, a cadeia de alimentos aparece como uma das mais vulneráveis às mudanças climáticas, por depender diretamente do regime de chuvas, da disponibilidade de água e das condições de temperatura. Secas prolongadas, inundações, ondas de calor e geadas fora de época podem reduzir safras, elevar o custo dos insumos, comprometer o transporte de produtos perecíveis e afetar tanto o abastecimento interno quanto as exportações.
Para reduzir esses riscos, o guia recomenda ampliar o uso de práticas de agricultura regenerativa, conservação do solo e da água e tecnologias de agricultura digital. Ferramentas de meteorologia de precisão podem apoiar decisões sobre plantio, irrigação, colheita e logística, aumentando a previsibilidade da produção e reduzindo perdas provocadas por eventos extremos.
A publicação também defende investimentos em infraestrutura de armazenagem e distribuição mais preparada para oscilações climáticas, além da adoção de medidas para minimizar os efeitos do estresse térmico na pecuária, como áreas de sombreamento e garantia de acesso permanente à água.
Com a possibilidade de o El Niño se estender até o início de 2027, a tendência é que empresas ampliem o uso de dados climáticos para orientar investimentos, reduzir vulnerabilidades operacionais e fortalecer a resiliência das cadeias produtivas diante da maior frequência de eventos climáticos extremos.
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