Resíduos podem suprir até 30% da demanda por fertilizantes no Brasil
País importa cerca de 85% dos fertilizantes e busca ampliar fontes nacionais de nutrientes
O aproveitamento de resíduos das cadeias agropecuárias e dos centros urbanos pode contribuir para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. Esses materiais concentram cerca de 8,57 milhões de toneladas de nutrientes por ano, segundo dados apresentados pela Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal, a Abisolo.
O potencial ganha relevância diante da participação dos produtos estrangeiros no abastecimento nacional. Cerca de 85% do nitrogênio, fósforo e potássio consumidos nas lavouras brasileiras vêm do exterior, deixando os custos de produção mais expostos ao câmbio e às oscilações do mercado internacional.
Em 2025, as entregas de fertilizantes no Brasil atingiram 49,1 milhões de toneladas, maior volume da série histórica. Aproximadamente 85% desse total correspondeu a produtos importados. O Plano Nacional de Fertilizantes prevê reduzir essa participação para uma faixa entre 45% e 50% da demanda até 2050.
Organominerais ampliam participação
Entre as alternativas para aumentar a oferta doméstica estão os fertilizantes organominerais, que têm potencial estimado para suprir até 25% da demanda por NPK. Coprodutos e resíduos agrícolas poderiam responder por parcela semelhante das necessidades de fósforo.
Os agrominerais, por sua vez, poderiam fornecer até 10% do potássio utilizado no país, enquanto os bioinsumos apresentam capacidade estimada para atender a 10% da demanda por nitrogênio e fósforo. Essas fontes são consideradas complementares aos fertilizantes minerais e podem aumentar a eficiência no uso dos nutrientes.
A disponibilidade de matéria-prima é elevada. As atividades rurais e as indústrias de processamento geram aproximadamente 3,85 bilhões de toneladas de resíduos por ano. O volume representa potencial para a produção de 1,18 bilhão de toneladas anuais de fertilizantes orgânicos.
Considerando apenas os nutrientes que podem ser recuperados desses materiais, a contribuição poderia equivaler a uma faixa entre 25% e 30% da demanda brasileira.
O avanço dessas tecnologias já aparece nas vendas. Em 2025, o mercado de biofertilizantes movimentou R$ 883 milhões, crescimento de 77% em relação ao ano anterior. As vendas de fertilizantes orgânicos chegaram a R$ 1,081 bilhão, alta de 58,5%.
Os organominerais responderam pelo maior faturamento entre os três segmentos, com R$ 2,810 bilhões no ano passado, avanço de 9% sobre 2024.
Logística limita aproveitamento
A transformação dos resíduos em fertilizantes ainda enfrenta limitações de logística. Os materiais são gerados em diferentes regiões e podem apresentar elevado teor de umidade. Como seu valor por tonelada tende a ser menor, o custo do transporte pode inviabilizar o uso em áreas mais distantes.
Uma das possibilidades é estruturar cadeias regionais de processamento próximas às fontes geradoras. A retirada de parte da umidade e a granulação dos produtos também podem facilitar o transporte, a comercialização e a aplicação no campo.
Outro ponto é a necessidade de padronização e controle de qualidade. A composição dos resíduos varia conforme sua origem, o que exige caracterização e tratamento específicos, além do controle de riscos sanitários e da presença de metais pesados.
O Brasil gera mais de 300 mil toneladas de lodo seco por ano. Esse volume poderá dobrar até 2033 com a expansão do saneamento. O material pode ter uso agrícola desde que cumpra os requisitos de segurança previstos na regulamentação.
Os resíduos também contêm cerca de 89,1 milhões de toneladas de carbono orgânico, quantidade equivalente a aproximadamente 327 milhões de toneladas de CO₂. Parte desse carbono pode ser estabilizada no solo, enquanto outra parcela retorna ao ciclo.
A incorporação de matéria orgânica pode ainda elevar a capacidade de troca de cátions, favorecer a retenção de água e melhorar as condições para a atividade biológica no solo. Segundo a Abisolo, o volume disponível seria suficiente, em termos quantitativos, para atender à recuperação de cerca de 20 milhões de hectares de pastagens degradadas existentes no país.
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