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ATR pressionado desafia rentabilidade dos canaviais

Live da ORPLANA detalha fatores que influenciam a remuneração da cana

A combinação entre custos ainda elevados, preços mais baixos do açúcar, excesso de oferta de etanol e a política de preços dos combustíveis deve continuar limitando a remuneração da cana-de-açúcar nos próximos meses. A avaliação foi apresentada durante a live promovida nesta terça-feira (28) pela ORPLANA, com apoio da Syngenta, que reuniu representantes da entidade, da DATAGRO e do PECEGE para discutir os fatores que influenciam o valor do ATR (Açúcar Total Recuperável) e as perspectivas para o setor sucroenergético.

Na abertura da transmissão, o CEO da ORPLANA, José Guilherme Nogueira, afirmou que o setor atravessa um momento de mudanças estruturais e que os fornecedores precisam acompanhar temas que vão além do comportamento dos preços. Entre eles, destacou as discussões sobre a evolução do Consecana, ressaltando a importância de os produtores acompanharem esse debate e seus possíveis reflexos sobre a remuneração da cana.

Segundo Nogueira, um dos objetivos da entidade é ampliar o acesso dos fornecedores a informações que contribuam para decisões cada vez mais estratégicas nas propriedades. Ao comentar as perspectivas para o etanol, citou iniciativas do setor privado, como a decisão da Syngenta de ampliar a utilização do biocombustível em sua frota. Para ele, o movimento sinaliza confiança das empresas no potencial do etanol brasileiro.

Representando a Syngenta, o gerente de Marketing Cana-de-Açúcar, Leandro Boncompagni, afirmou que transformar informação em conhecimento é um dos pilares da parceria com a ORPLANA. Segundo ele, a safra tem sido marcada por chuvas fora de época, que atrasaram o ritmo da colheita, favoreceram a incidência de pragas e doenças e dificultaram a evolução do ATR. Ao abordar esse cenário, destacou a importância do manejo integrado para reduzir esses impactos e apresentou soluções para o controle da broca-da-cana, do Sphenophorus levis, da ferrugem e do Fusarium, citando as tecnologias FRONDEO® Cana, ENGEO PLENO® S e Reverb.

Custos seguem elevados

Na avaliação dos participantes, o ambiente econômico exige atenção especial à gestão da propriedade. Embora alguns insumos tenham recuado em relação aos picos registrados nos últimos anos, o custo de produção permanece elevado e continua reduzindo as margens dos fornecedores de cana.

Ao comentar o cenário, João Rosa (“Botão”), diretor do PECEGE, reforçou que o momento exige eficiência operacional. Segundo ele, reduzir desperdícios e aprimorar a gestão da propriedade torna-se ainda mais importante em períodos de menor remuneração da matéria-prima. “A lição de casa para todos nós é gestão de custos e da operação”, resumiu durante a transmissão.

O especialista também ressaltou que a relação entre fornecedores e usinas deve permanecer baseada em cooperação. Como a atividade sucroenergética envolve investimentos de médio e longo prazo, um ambiente de confiança entre as partes contribui para a sustentabilidade do sistema de remuneração e para a competitividade do setor.

ATR reflete comportamento do mercado

Um dos principais pontos esclarecidos durante a live foi que a redução do valor do ATR observada nos últimos meses não decorre de mudanças na metodologia do Consecana-SP, mas do comportamento dos mercados que formam a remuneração da cana.

João Rosa explicou que o cálculo parte da conversão dos preços dos produtos derivados da cana para uma base comum de ATR. Açúcar e etanol possuem remunerações diferentes, mas o valor pago ao fornecedor depende do mix efetivamente produzido pelas usinas, da participação da matéria-prima no processo industrial e dos preços praticados para cada produto.

Segundo ele, a queda do indicador resulta da combinação entre o recuo das cotações internacionais do açúcar, as dificuldades enfrentadas pelo mercado de etanol e a política de preços dos combustíveis no Brasil. Dessa forma, o atual patamar do ATR reflete as condições de mercado, sem qualquer alteração na lógica utilizada pelo Consecana para remunerar produtores e indústria.

Açúcar, etanol e combustíveis moldam o cenário

Ao analisar o mercado internacional, o diretor da DATAGRO, Guilherme Nastari, observou que o setor atravessa um período diferente daquele registrado nos últimos anos, quando a oferta global mais restrita sustentava preços mais elevados do açúcar.

Nastari afirmou que o Brasil deixou de ser o único fator determinante para a formação das cotações internacionais, que hoje também refletem o desempenho de outros grandes produtores, como Índia e Tailândia, além do comportamento dos estoques mantidos por importantes países importadores. Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que uma recuperação mais consistente dos preços ocorre de forma lenta.

O diretor da DATAGRO destacou que o mercado mundial continua oferecendo oportunidades ao setor sucroenergético brasileiro, mas ressaltou que elas dependem de um ambiente mais favorável para os biocombustíveis. Na sua avaliação, o Brasil ainda possui espaço para ampliar o consumo de etanol, tanto por meio da frota flex quanto pela expansão da mistura obrigatória de anidro na gasolina. Ele também chamou atenção para novas frentes de demanda, como o combustível sustentável de aviação (SAF) e o combustível renovável para o transporte marítimo, que deverão ganhar importância nos próximos anos e ampliar o papel da cana-de-açúcar na transição energética.

Nastari também lembrou que a expansão do etanol de milho deverá ampliar a oferta nacional de biocombustíveis nos próximos anos, fortalecendo a matriz energética brasileira. Ao mesmo tempo, observou que esse movimento tende a elevar a concorrência no mercado e exigirá ganhos contínuos de eficiência por parte das usinas de cana.

João Rosa acrescentou que o setor enfrenta dificuldades simultaneamente nos dois principais produtos que compõem a remuneração da cana. O açúcar perdeu valor no mercado internacional, enquanto o etanol convive com excesso de oferta no mercado interno e limitações para ampliar as exportações. “Os dois mercados estão pressionados. É por isso que o preço está baixo”, resumiu durante a transmissão.

Gasolina limita reação do etanol

Segundo o diretor do PECEGE, parte desse cenário também decorre da defasagem entre o preço da gasolina praticado no mercado interno e a paridade internacional, fator que reduz a competitividade do etanol hidratado. Pelos cálculos apresentados durante a live, caso essa diferença fosse eliminada, o Consecana poderia incorporar entre R$ 0,05 e R$ 0,10 por quilo de ATR. Em uma lavoura com 140 quilos de ATR por tonelada de cana, esse acréscimo representa impacto direto na receita do fornecedor.

Na avaliação dos especialistas, a ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para E32 tende a fortalecer a demanda pelo biocombustível e reduzir parte do excedente de oferta observado atualmente. Embora a medida, isoladamente, não reverta o cenário atual, ela pode contribuir para melhorar gradualmente a remuneração da matéria-prima, especialmente se vier acompanhada da recuperação das cotações internacionais do açúcar e de um ambiente mais favorável para o mercado de combustíveis.

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