Peptídeos abrem nova frente para elevar produtividade da cana
Elicitores ativam respostas ligadas à defesa e ao crescimento da planta
A busca por maior produtividade na cana-de-açúcar passa cada vez mais pela compreensão do metabolismo da própria planta. Peptídeos elicitores, capazes de estimular mecanismos relacionados à defesa, ao crescimento e ao desenvolvimento, aparecem entre as ferramentas que avançam nessa direção sem atuar como fonte de nutrientes.
O tema foi abordado por Paulo Alexandre Figueiredo, professor e pesquisador da Unesp de Dracena e pesquisador da PI AgSciences, durante o 20º Grande Encontro sobre Variedades de Cana & Novas Técnicas de Fertilização. Organizado pelo Grupo IDEA, o evento foi realizado nos dias 2 e 3 de setembro, em Ribeirão Preto – SP.
Na palestra “O potencial está na planta, uma nova visão para a produtividade da cana”, Figueiredo mostrou como tecnologias voltadas à fisiologia vegetal podem interferir na maneira como a cultura responde às condições do ambiente. O princípio é estimular processos naturais da planta para favorecer seu desenvolvimento e prepará-la para situações de estresse.
A lógica parte do balanço entre fotossíntese e respiração. A glicose produzida pela fotossíntese fornece energia para o metabolismo e sustenta processos como formação de estruturas e divisão celular. Parte dessa energia, porém, também precisa ser direcionada aos mecanismos de defesa quando a planta enfrenta doenças, nematoides, insetos ou outros fatores de estresse.
“Bactérias, nematoides e insetos vão drenando a energia da planta”, explicou o professor. Nesse cenário, a capacidade de responder aos estímulos sem comprometer excessivamente o crescimento torna se relevante para o desempenho da cultura.
Elicitores funcionam como sinais de alerta na planta
Os peptídeos elicitores são pequenas cadeias de aminoácidos reconhecidas por receptores na membrana das células. A partir desse contato, sinais são transmitidos para o interior da célula e podem ativar respostas que ajudam a preparar a planta para condições adversas.
Entre os exemplos apresentados estão as harpinas, proteínas elicitoras capazes de estimular genes relacionados à proteção, defesa, crescimento e desenvolvimento. A resposta depende tanto do estágio da cultura quanto das condições ambientais enfrentadas naquele momento.
O mecanismo envolve diferentes processos fisiológicos. A apresentação relaciona a sinalização à atuação de hormônios como ácido salicílico, etileno e giberelina. Também entram nesse processo proteínas envolvidas na transmissão de sinais entre as células e expansinas, associadas à expansão dos tecidos.
Segundo Figueiredo, o ponto central é que esse tipo de ferramenta não fornece diretamente elementos para a nutrição da cultura. “Ela não age como nutriente. Ela ativa a rede de sinalização da própria planta”, disse. Por atuar em uma rota distinta, acrescentou, pode ser utilizada em conjunto com outras estratégias de manejo.
Ensaio mostra resposta no ATR no fim da safra
Figueiredo apresentou resultados de um experimento conduzido pelo Gecana na Usina Santa Adélia, em Pereira Barreto – SP. O ensaio de maturação de final de safra foi instalado em 4 de outubro de 2025, com colheita realizada 50 dias depois.
Foram comparados quatro tratamentos, testemunha, o maturador Moddus, a proteína Harpin H2Copla e a combinação dos dois produtos. No ATR, a testemunha registrou 137,88 quilos de açúcar recuperável por tonelada de cana. O Moddus chegou a 142,71 quilos, o H2Copla a 147,87 quilos e a aplicação conjunta atingiu 150,70 quilos por tonelada.
Figueiredo também chamou a atenção para o Brix. Segundo os dados apresentados, uma variação de 0,20 ponto percentual representa aproximadamente 1 quilo de açúcar, o que dá dimensão econômica a alterações aparentemente pequenas quando consideradas em grandes volumes de cana.
Aos 50 dias, a combinação entre Moddus e H2Copla registrou Brix de 18,92%, ante 16,94% da testemunha. O H2Copla, produto da PI AgSciences, alcançou 17,94%, enquanto o Moddus, da Syngenta, registrou 17,27%. O ensaio foi realizado para avaliar o uso das ferramentas na maturação de final de safra.
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