Irrigação ganha espaço na estratégia do setor sucroenergético
Irrigacana reúne cadeia produtiva para discutir produtividade e uso da água
A irrigação vem ganhando espaço no planejamento do setor sucroenergético como alternativa para reduzir a exposição dos canaviais às oscilações climáticas e dar maior estabilidade à produtividade. O tema está no centro da 7ª edição do Irrigacana, que começou nesta quarta-feira (9), em Ribeirão Preto – SP, e termina nesta quinta-feira (10).
Com expectativa de reunir mais de 700 participantes, o encontro aproxima produtores, usinas, pesquisadores, fornecedores e especialistas para discutir tecnologias, manejo agronômico, disponibilidade de água e estratégias de investimento. A programação inclui ainda uma feira dedicada a equipamentos e soluções para irrigação.
Na abertura, o diretor do GIFC, René Sordi, destacou que a discussão precisa ir além da instalação de equipamentos. A proposta é avaliar a irrigação de maneira integrada, considerando automação, aspectos agronômicos e planejamento das operações. “Não se faz irrigação sem melhorar e mudar os nossos manejos”, afirmou.
A necessidade de reduzir a dependência das chuvas também apareceu nas discussões sobre produtividade. Luciano Rodrigues, diretor de Economia e Inteligência Setorial da Unica, apontou que as oscilações observadas nos canaviais do Centro-Sul nas últimas décadas estão relacionadas, entre outros fatores, às condições climáticas.
Nesse cenário, diferentes modelos, da irrigação plena ao déficit controlado e à irrigação de salvamento, podem contribuir para aumentar a previsibilidade da produção. O avanço da produtividade também é considerado relevante diante das perspectivas de expansão do etanol em mercados como transporte marítimo, geração de energia e combustível sustentável de aviação.
Água impõe limites à expansão
O avanço dos projetos, porém, ocorre em um ambiente de maior disputa pelos recursos hídricos. Marco José Melo Neves, superintendente de Regulação de Usos e Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, chamou atenção para a necessidade de planejamento das outorgas.
Segundo ele, cerca de 65% das solicitações analisadas pela ANA estão relacionadas à irrigação. Para quem já possui autorização, o pedido de renovação deve ser apresentado entre 365 e 90 dias antes do vencimento, período que preserva a prioridade do usuário que já exerce atividade na bacia.
Em São Paulo, o número de outorgas vigentes se aproxima de 112 mil, ante menos de 100 mil há cerca de dois anos. De acordo com Ana Paula Brites, diretora da SP Águas, mais de 32 mil autorizações estão relacionadas ao uso rural. O órgão trabalha na modernização das normas e do sistema eletrônico utilizado nos processos, com previsão de avanços até o fim deste ano.
As limitações são mais evidentes em regiões de elevada demanda. Nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que abrangem 76 municípios e cerca de 5,9 milhões de habitantes, o abastecimento público e o uso industrial têm forte participação na demanda pela água.
Denis Herissom da Silva, secretário executivo do Comitê das Bacias PCJ, apontou disponibilidade de aproximadamente 927 metros cúbicos de água por habitante ao ano na região. O cenário exige que novos projetos considerem não apenas o potencial de aumento da produtividade, mas também as restrições e prioridades existentes para o uso do recurso.
Tecnologia avança no campo
A transformação da irrigação em uma estratégia permanente das empresas também esteve entre os pontos discutidos no encontro. João Rosa “Botão”, sócio-diretor do Pecege Consultoria e Processos, observou que os investimentos costumam ganhar prioridade em períodos de seca e perder espaço quando as chuvas retornam.
Para ele, o desafio está em incorporar esses projetos ao planejamento de médio e longo prazo. Dados apresentados durante o evento indicaram que a produtividade da cana no Centro-Sul permaneceu próxima de 75 a 78 toneladas por hectare em grande parte das últimas safras, com resultados mais elevados associados também a períodos de maior disponibilidade hídrica.
Ao mesmo tempo, fornecedores e grupos sucroenergéticos vêm ampliando o uso de tecnologias para elevar a eficiência das operações. Entre as soluções apresentadas estão sistemas de gotejamento adaptados às condições brasileiras, automação, monitoramento remoto e ferramentas capazes de controlar vazão, pressão e aplicação de água no campo.
A experiência apresentada pela Bunge mostrou que a digitalização permite acompanhar equipamentos em tempo real e formar uma base histórica para o planejamento das operações. O processo, porém, exige investimento, treinamento das equipes, manutenção especializada e mudanças na rotina operacional.
No manejo agronômico, Regina Célia de Matos Pires, pesquisadora e vice-diretora geral do Instituto Agronômico, destacou a necessidade de compreender a distribuição da água no perfil do solo. No gotejamento, características como textura, condições químicas e formação do chamado bulbo úmido interferem diretamente no aproveitamento da água pelas raízes.
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