El Niño amplia incerteza sobre mercado global de açúcar
Safras menores na Ásia e Europa deixam balanço mundial mais ajustado
O avanço do El Niño aumenta as incertezas para o mercado mundial de açúcar na safra 2026/27. Os efeitos do fenômeno climático sobre importantes regiões produtoras, somados às dificuldades enfrentadas na Europa e aos estoques reduzidos na Índia, colocam a oferta global no centro das atenções para os próximos meses.
Levantamento realizado pelo NovaCana com 14 empresas aponta para um mercado praticamente equilibrado no ciclo internacional, que vai de outubro de 2026 a setembro de 2027. A média das estimativas indica déficit de 470 mil toneladas, enquanto a pesquisa realizada em maio apontava superávit de 550 mil toneladas.
A diferença entre as projeções mostra, porém, o grau de incerteza. As estimativas consideradas no levantamento vão de déficit de 4,03 milhões de toneladas a superávit de 4,86 milhões de toneladas. O comportamento do clima nos próximos meses será determinante para definir de que lado esse balanço ficará.
Ásia concentra parte dos riscos para a oferta
Na Índia, um dos principais produtores e consumidores de açúcar do mundo, o nível reduzido dos estoques e o comportamento irregular das monções aumentam a preocupação com a disponibilidade do produto. Na Tailândia, outro importante exportador, a expectativa é de redução da produção, em parte pela migração de produtores para outras culturas.
A Europa também enfrenta dificuldades. O clima quente e seco prejudicou a produção em algumas regiões e reforçou as dúvidas sobre a disponibilidade de açúcar no mercado internacional. O cenário ganha importância à medida que diferentes origens enfrentam problemas simultaneamente.
No Brasil, o risco está principalmente no excesso de chuvas. As precipitações podem reduzir o ritmo de processamento da cana-de-açúcar no Centro-Sul e limitar a recuperação da moagem nos últimos meses da temporada.
Jean-Luc Bohbot, ex-diretor de operações de açúcar da Wilmar International, afirmou à Reuters que um volume equivalente a cerca de 25 milhões de toneladas de cana já teve o processamento atrasado pelas chuvas no Brasil. Segundo ele, a continuidade das precipitações em outubro e novembro poderia reduzir a produção brasileira de açúcar entre 3 milhões e 5 milhões de toneladas em relação à safra passada.
Brasil ganha peso no equilíbrio mundial
A situação em outros países produtores aumenta a importância do Brasil no abastecimento internacional. Mesmo com os riscos climáticos, a produção brasileira pode compensar parte das perdas previstas em outras origens e contribuir para evitar um desequilíbrio mais acentuado entre oferta e demanda.
No Centro-Sul, entretanto, a produção de açúcar já apresenta retração. Até 15 de agosto, foram fabricadas 20,23 milhões de toneladas, queda de 11,7% em relação ao mesmo período da safra anterior, apesar do crescimento de 2% na moagem de cana-de-açúcar. A matéria-prima processada alcançou 361,60 milhões de toneladas.
Na primeira quinzena de agosto, o movimento foi semelhante. A moagem avançou 2%, para 48,39 milhões de toneladas, enquanto a produção de açúcar recuou 7,9%, para 3,31 milhões de toneladas.
Parte da diferença está relacionada à maior destinação de cana-de-açúcar ao etanol durante a temporada. A fabricação do biocombustível acumulou 18,68 bilhões de litros até 15 de agosto, avanço de 14,7% na comparação anual.
Com diferentes regiões produtoras expostas a problemas climáticos, o balanço mundial permanece sensível às próximas etapas das safras. No levantamento com as 14 empresas, as projeções para 2026/27 ainda variam em quase 9 milhões de toneladas entre o cenário mais deficitário e o mais superavitário.
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