Agro cobra estratégia de longo prazo para ampliar competitividade
Congresso Brasileiro do Agronegócio debate comércio, inovação e crédito
O agronegócio brasileiro precisa transformar sua posição de destaque na produção mundial em uma estratégia de longo prazo, com maior integração entre agro e indústria, segurança jurídica e diversificação de mercados. A avaliação marcou a 25ª edição do Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizada nesta segunda-feira (10), em São Paulo.
Promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio, a ABAG, em parceria com a B3, o encontro reuniu autoridades, executivos e especialistas para discutir os desafios do setor diante das mudanças no comércio internacional, do avanço tecnológico e da necessidade de ampliar as fontes privadas de financiamento.
Na abertura, o presidente da ABAG, Ingo Plöger, afirmou que o país construiu nas últimas décadas um agronegócio competitivo, mas precisa avançar na participação das decisões que definirão o comércio internacional. Segundo ele, o próximo passo envolve agregar valor à produção, criar mercados e contribuir para a formulação das novas regras globais.
A entidade entregou ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, uma Agenda Estratégica da Agroindústria Brasileira. O estudo avaliou mais de 80 fatores, classificados de acordo com urgência, impacto e prazo de implementação, e reúne propostas de curto, médio e longo prazo.
Alckmin afirmou que o Brasil avança para ampliar sua participação nas exportações mundiais de alimentos e destacou os efeitos esperados da reforma tributária. Segundo dados do Ipea apresentados pelo vice-presidente, as mudanças poderão elevar o PIB em 12% em 15 anos, os investimentos em 14% e as exportações em 17%.
Comércio exterior ganha peso na estratégia
A ampliação de mercados também esteve entre os principais temas do congresso. O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que o Brasil já conquistou 674 novos mercados para produtos agropecuários e espera superar 700 até o fim do ano.
“Quanto mais integrada estiver a cadeia, maior será nossa capacidade de competir no mundo e contribuir para o desenvolvimento do país”, afirmou.
A senadora Tereza Cristina defendeu que o agronegócio seja tratado como política de Estado, com previsibilidade e segurança jurídica. O deputado federal Arnaldo Jardim também apontou a necessidade de transformar a capacidade de adaptação do setor em uma estratégia permanente.
As mudanças na geopolítica adicionam outro componente a esse cenário. O embaixador do Brasil no Reino do Marrocos, Alexandre Parola, avaliou que a reorganização das relações entre Estados Unidos, China, Índia, Rússia e outros atores exige do Brasil planejamento além das demandas imediatas.
Segundo ele, questões de segurança estratégica passaram a influenciar com maior intensidade as decisões econômicas e comerciais das grandes potências. Para o agronegócio brasileiro, esse movimento pode abrir mercados, mas também exige diversificação de destinos e redução de vulnerabilidades.
O diplomata Braz Baracuhy chamou a atenção para a dependência brasileira de rotas internacionais estratégicas e defendeu a combinação entre iniciativa privada e uma política de Estado voltada à segurança alimentar e energética.
Regulação pode determinar ritmo dos investimentos
A capacidade de incorporar novas tecnologias foi apontada como outro fator decisivo para a competitividade. A presidente da CropLife Brasil, Ana Repezza, afirmou que marcos legais, proteção de cultivares e previsibilidade regulatória influenciam diretamente as decisões de investimento das empresas.
Na avaliação da executiva, atrasos nos processos regulatórios podem retardar a chegada de novas moléculas e outras tecnologias ao campo. O impacto ganha relevância diante das características da agricultura tropical brasileira, submetida a elevada pressão de pragas e condições climáticas desafiadoras.
O tema também alcança os biocombustíveis. Gustavo Mariano, vice-presidente da Inpasa, afirmou que a previsibilidade das regras é necessária para reduzir custos e dar segurança aos investimentos, principalmente diante de novas exigências internacionais.
“A velocidade de adoção de tecnologias para a melhoria dos processos é o caminho para uma agroindústria forte”, disse.
Gastón Díaz Pérez, presidente e CEO da Bosch América Latina, acrescentou que a digitalização e a inteligência artificial já fazem parte da realidade empresarial, mas precisam ser acompanhadas pela formação de profissionais capazes de utilizar essas ferramentas.
Mercado de capitais amplia espaço no agro
O financiamento privado foi outro eixo das discussões. Segundo Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, as emissões de Cédulas de Produto Rural somavam R$ 470 bilhões até junho. As Letras de Crédito do Agronegócio alcançavam R$ 560 bilhões, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio, R$ 170 bilhões, e os Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio superavam R$ 30 bilhões.
Instrumentos como CRA e Fiagro também ampliaram as possibilidades de participação de investidores no financiamento do setor. Cerca de 600 mil investidores possuem aplicações em CRA, com tíquete médio de R$ 43 mil. No Fiagro, o valor médio fica próximo de R$ 1 mil.
Para Flávia Palacios, diretora da ANBIMA, ampliar esse mercado exige melhorar tanto a compreensão dos produtores sobre crédito quanto o conhecimento dos agentes financeiros sobre os riscos específicos da atividade agropecuária.
A gestão desses riscos ganha importância diante da maior frequência de eventos climáticos extremos. Monique Cardoso, superintendente de Sustentabilidade da CNseg, afirmou que menos de 100 mil produtores rurais possuem seguro no Brasil. Na avaliação dela, ampliar a cobertura pode fortalecer a gestão de risco e facilitar o acesso ao crédito. O avanço do financiamento privado, da inovação e da abertura de mercados tende a ganhar ainda mais importância diante de um ambiente internacional marcado por disputas comerciais e mudanças regulatórias. Para o setor, o desafio será converter a escala produtiva brasileira em maior competitividade e capacidade de agregar valor, reduzindo a exposição a oscilações externas.
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