Rota Bioceânica abre nova fronteira para o etanol brasileiro
O etanol brasileiro começa a ganhar espaço além do mercado automotivo. Entre as novas frentes estão a produção de combustível sustentável de aviação, o SAF, e o uso de biocombustíveis no transporte marítimo. O avanço dessas aplicações traz também um desafio conhecido pelo setor sucroenergético: fazer essa energia chegar aos consumidores de forma competitiva.
A logística é parte importante dessa conta. Quando o objetivo é alcançar mercados internacionais, transporte, armazenagem, terminais e distância até o destino pesam sobre o custo final. Ganhos obtidos no campo e na indústria podem perder força ao longo desse percurso.
É nesse cenário que a Rota Bioceânica entra na discussão. O corredor parte de Mato Grosso do Sul, atravessa Paraguai e Argentina e chega ao norte do Chile, criando uma ligação terrestre com o Oceano Pacífico. A rota abre uma alternativa aos corredores pelo Atlântico e um novo acesso aos mercados da costa oeste da América do Sul e da Ásia.
A conta também chega ao canavial
Para o produtor de cana-de-açúcar, essa discussão pode parecer distante, mas não é. A capacidade de o etanol conquistar mercados influencia a demanda pela matéria-prima e as decisões tomadas pelas usinas sobre o destino da cana.
A safra 2026/27 ajuda a mostrar essa relação. A produção brasileira de etanol deve alcançar 41,9 bilhões de litros, alta de 11,7%. O etanol de cana deve responder por 30 bilhões de litros, crescimento de 9,7%. Em São Paulo, a produção do biocombustível deve avançar 4,5%, para quase 13 bilhões de litros, enquanto a fabricação de açúcar deve recuar 2%.
Em linhas gerais, as usinas paulistas vêm direcionando uma parcela maior da cana ao etanol diante da maior procura pelo biocombustível e da geração mais rápida de caixa.
Uma logística mais eficiente não garante, por si só, maior remuneração ao produtor. Mas pode reduzir obstáculos ao escoamento e ampliar o alcance do etanol brasileiro. Para uma cadeia que começa no canavial, o acesso a mais destinos também amplia as possibilidades de uso da matéria-prima.
Bioceânica entra no mapa do setor
A rota não deve ser vista como substituta dos portos brasileiros nem como solução imediata para o escoamento do etanol. Os portos chilenos de Antofagasta e Iquique, no entanto, acrescentam uma saída pelo Pacífico que pode ser avaliada pelo setor.
O corredor avança fisicamente. A ligação entre Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai, é uma das principais estruturas dessa integração. De lá, a rota segue por Paraguai e Argentina até o território chileno.
Transformar essa conexão em um corredor para biocombustíveis exigirá mais do que estradas. O etanol demanda estruturas de armazenamento e movimentação, eficiência aduaneira, segurança e escala para que a operação faça sentido econômico.
A questão, portanto, não é apenas chegar ao Pacífico, mas saber a que custo e em quais condições. Esse cálculo determinará se a Bioceânica poderá ocupar espaço na logística do etanol.
O fato de o tema ter sido discutido recentemente em Ribeirão Preto por representantes do Brasil, Paraguai, Chile, China e Coreia do Sul, é sinal de que o corredor já entrou na agenda comercial dos países envolvidos. Para o setor sucroenergético, ainda há contas a fazer. Mas, em um momento de expansão dos usos do etanol, uma nova saída para o Pacífico merece estar entre elas.
Por Almir Torcato, diretor executivo da Canaoeste
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